Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Deste lado



Uma mão estendida no espaço
Um vortex de cores
E um tendão de gestos
Conjuntos, dispersos
No vociferar do teu silêncio agudo
Acordado, deitado em mim...

Espero aqui...
O teu abraço quente
E a ternura doce
Esse halo de força maior e esplendor
Aqui... dentro deste lado
Onde impera o amor

Espero aqui...
A ardência incandescente
De centenas de perguntas sem resposta
E mil e uma farpas despertando a tua atenção
E o medo...
De que a face que me olhou...
Não olhe mais...
Com o mesmo brilho que encontrei...
Essa luz que me encontrou...
Deste lado...
Onde impera o que ficou...
Do areal de fogo...
Que o mar inundou..!

Onde estou...?

Onde estou?...


Na mesa o lápis perdido
E a borracha esconde-se perto da tua mão
E há um areal extenso
Onde adormeces tranquila
E um balão de ar quente
Que levita sobre o chão
De onde vês a tua vida toda
Compilada num instante...!

E saboreias o doce amargo sabor
De rituais de encantamento e poesia
Que ali... frente à porta escancarada do vazio
Eu... penetro... no intenso universo
Do Inverno que acontece...

Um sofá antigo
As nuvens cinzentas...
O ar húmido...
Um lírio lilás
As flores que um dia colhi... para ti...
Fossilizadas nas lembranças do amanhã...
E...

E... as profundas palavras
Colossais momentos
Indizíveis na sua nudez mais profunda...
Estilizadas numa tela a rubi
Grito surdo... explosão calada
É o verso de uma morte anunciada
Que crepita no ilusionismo
De afinal não estarmos aqui...

Onde estás...?
Onde estou...?
Serás tu... o semi-arco aberto de um arco-íris proibido...?
Serás tu... o oceano mareante... navegante... o absinto incerto, invisível no imediato segundo posterior ao sonho...?
Serás tu... aquela ferida, lacinante... que dói... cada vez... que choras...?
Serei eu... o inexistente...?
Onde estou...? Onde estou....??
Será que estou....?
Será que eu sou alguma coisa...?
Será que existo....?

Hoje... estaria capaz....
De olhando tudo aqui... e tudo ali...
Dizer que não me vejo... nem localizo
Como se num instante fosse miragem
A miragem de mim próprio em si
E no instante seguinte...
Nunca tivesse existido...

Talvez... nunca tenha realmente existido...
Talvez... sim...
Talvez... não...
Talvez... me pergunte simplesmente....
Num questionamento suave e puro...
Ondulante e divagante...
- Onde estou...?

No chão...



Diluí o verso eloquente da ternura
E nas mãos ficaram as gotas de tinta
As gotas de água, as lágrimas que sobraram
Do saco de lágrimas que chorei
E me choraram...

Dissipei as nuvens tempestuosas em surdina
E as árvores agitaram densos ramos na neblina
E nos dedos, e nas unhas, e no corpo todo...
Adormeceram as fagulhas de um fogo ardente que cessou
Além do sonho...

Às vezes num instante de reflexão
Pergunto-me, indago as minhas dúvidas ao infinito
Será que somos nós que choramos
Que carpimos dolentemente a dor sentida em vão
Ou seremos somente, apenas nós
As lágrimas choradas... que jazem como lagos... no chão...?

O Eu ninguém



O vento ouve por mim
Aquilo que a noite fala
Aquilo que a noite diz

O vento... estremece aqui
Quando a lágrima cai
E o futuro nunca está
Onde está o sentir

Leva-me...
Leva-me para lá das colinas de neve leve

Leva-me...
Leva-me para lá do nível alegre e breve da cintilância
E aí... talvez.. a fragrância... talvez o corpo... talvez.. o tempo...
Sejam outros...
E Eu seja... aí.. talvez... um outro Eu...
Um outro estar... um outro sentir... um outro amar.. um outro correr...
E o vento na face... e a face no riso... tocando-me e agitando-me...
Antes de partir...
E Eu seja...
E Eu fosse...
Talvez...aí... o Eu ninguém
Que dorme e desperta
No amanhã...agora!

O Relevo do Pensamento



Abrir a minha alma
Deixar que as palavras tomem o seu lugar
E junto da rocha oceânica
Sentir o nosso mar falar

Há talvez
Uma forma diferente de crescer
Olhos feitos sonhos
Braços feitos vento
E tempos inconstantes
Na reverberância do não ser

Há talvez escondida
Debaixo da pele
Uma raiva secreta de existir
Uma revolta constante de mudar
De acreditar sem ser crente
De duvidar sem estar aqui
E um grito... por dar...
Um gesto por... haver...
Uma dor por questionar...
Um rosto ... por acontecer...

Há talvez escondido
No trémulo gosto dos temperos
Sabores que não sabemos
Palavras que não dizemos
Instantes que não vivemos
E mundos... que abandonamos...
Quando essa dor... essa raiva... esse desespero...
Nos fazem... mais....
Mais...
Eloquentemente mais....cansados...
Incrivelmente... menos... vivos...
E mais... mais... apaixonados... por um céu estrelado... no extenso areal...
E os pinheiros ao alto...
Os sussurros dançando no ar...
Segredos feitos de cores
E odores.. odes de amantes...
Divagantes, colossais...
Estrelas de cetim...
E pétalas descendentes... na harmonia das pétalas que murmuram
Na antecâmara... da verdade...
O chão foge-me...
O céu implode...
E o instante não tem preço...
Tu entras...
Tu sais...
Eu expludo em nós...
E os nós desfazem-se...aqui...!

Sem nós... a vida aparta-se...
E a tela viva de relevos indeterminados...ausenta-se..
E os seios da Deusa da vida.. circulares...Lua cheia...
E as paredes brancas... e as molduras suaves... da noite calada...
Desmaiam... quebram-se os sinos da torre de vidro...
E nos olhos dos Homens...
Uma falta de brilho sem expressão...
Olhos que olham sem olhar
E olhares que olham... sem lugar...
Olhos que morrem... na retina da solidão
Brilhos que escorrem.... e não voltam...
Aos brilhos que tinham... aos olhos que eram...
Os olhos de quem sonhou...a liberdade...!

E o avião vibra, o motor do carro precipita a velocidade...
O farol intenso... clama de infinito... no horizonte...
E a maquinaria do coração... deslumbra de vapor...
A loucura tumultuosa...
Com que os braços pouco mecânicos... estremecem...
E as cartas... de todos os silêncios...
Espelham num espectro de coisa vazia
A sorte... o azar... o caos na sua face definida...
E o débito de presente... germina já... nos bancos da escola...
Somos dúvidas, dívidas...
Somos o que não ficou...
Dos seres que não somos...
Espíritos empenhados em praça pública...
Com os pescoços presos... e os corpos suspensos...
Num Pelourinho... de justiças injustas...
De uma montanha... que recuou...
Ao longo.. da planície...!

Criámos Deus... para que ele nos comandasse... nos criasse...
Mas esquecemo-nos que criando... somos nós o Deus de Deus...
Somos nós quem deverá responder... com milagres
A um Deus... que nos deverá ofertar as suas preces e rezas...
E rituais, e dogmas e.. fés irrelevantes..

De facto...
Abri a minha alma
Deixei que as palavras tomassem o seu lugar
E junto da pedra angular
Senti o meu mar falar

Há talvez
Uma forma colorida de adormecer
Nuvens feitas ondas
Pássaros imóveis no voar
Amores secretos, ocultos, repletos de cumplicidade...
E vultos inundados... de recordações e de fado...
Entes inquietos... tão quietos... estranhos... fundos...
Que me falam...
E esses olhos... indizíveis... imensuráveis...
Leves, loucos... unguento distante... momento...
Estranhamente... estranho o encanto...
E o mármore da dor regressa...
Às grutas invisíveis que não conheço...
De uma existência...
De um espelho de água...
Onde me embebedo de ontens e de amanhãs... de sempres... e de nuncas...
Que serão... flor, floresta, calor, chuva, mistério, tabú...
Amarra-me o tempo ao tempo
E o Éden... esvai-se... pelas gotas cristalinas
Do teu beijo...!

E morro..
A baía de declives já aconteceu
A música tonificava os electrões da atmosfera
E o fim chegou...
E eu morri...
Talvez.. aqui...
Ou em todo o lugar...
Sem nunca morrer...
Porque ficou parte da paisagem.. do relevo...
O meu pensamento...

Ficou...
De relevo de mim...
O Relevo do Pensamento...
O Princípio...
... e o Fim...!

Sou um pássaro



Sabes,
Sou um pássaro...!

Só hoje descobri
Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra
Quando esticava os braços que eram asas à sombra
Olhei de relance para um espelho fixo
No outro lado da rua
E vi um corpo de pássaro...
Uma memória de pássaro...
Um levitar... de pássaro
Que não se escondia... nem calava...
Vi uma alma de pássaro...
Que não fugia nem se camuflava..
No denso arvoredo que ainda haveria de existir
Junto ao lago sagrado do artista genuíno...
Que compõe melodias feitas de si próprio
E se transforma... em breves instantes...
Em instantes de si mesmo...
Nos pedaços da obra que inventa...
Da escultura que molda...
Do poema que escreve
É ele a sua métrica... a sua regra... a sua forma... o seu sentido...
De sonhador...
De apaixonado...
De amante...
- E crepita... luz...!
Crepita...! Cintila firmamento suave...! Eu espero por ti... pela tua voz...!
Espero... pelo teu sabor sumptuoso... febril... quente...
Pelo teu silvo ardente...
Essa melodia divinamente harmoniosa
Que estipula... todos os limites do céu...
Aqui...
Ali...
No infinito...
Por dentro do vácuo ermo e sorridente
Desse lampejo de liberdade... que é voar...
Assim...
Com as asas... abanando...
Porque... sabes...?

Sabes... meu bom amigo...??
Hoje descobri...
Sou um pássaro...!

Sabes,
Sou um pássaro..!

Vale do nada



Sigo,
Uma rota de labareda
Um colibri de todas as cores
Pousa à minha frente, na janela
Eu olho para ele...
Ele olha para mim...
Tantas coisas dizemos naquele segundo de cumplicidade perfeita..
E reinventamos o amor..
Desenhado de fantasia...
Reinventámos a medida com que se contam os segundos
Recriámos a fórmula etérea da energia
Destituídos e nús... já sem tempo...
Fomos vento e sol...
Naquele momento..

Como pode um segundo ser tão vasto...? Ser tão... intenso...?
Como... pode um verso ser tão.... ser tão distante...?
E a pergunta ser tão.... ser tão pergunta...!?
E.. quando fecho os olhos...
No escuro das pálpebras...
Quebro os cadeados que mantêm... as almas fechadas... e os olhos fechados... e os sonhos encarcerados... na cegueira de não ser-se nada...
Serei o único a pensar sobre a forma de me questionar no mundo...?
Serei tão inútil assim... que pensar... é a última coisa que me resta fazer...?
Mas... encantam-me... os voos explêndidos dos vizinhos pássaros
O brotar colorido... dos botões das flores, das suas pétalas.. iluminando...
Iluminando... o verde clorófilo das ramagens das plantas... e a relva... e as árvores...
E um fundo azul celeste... por detrás...
E em baixo... lá em baixo...
Num vale glaciar...
Corre um rio de águas transparentes..
Lá... não há mentira...
Lá... não há tristeza... nem reflexão profunda... nem pensamentos... nem memórias...
Nem lucidez.... nem loucura...!

Lá... só há essa simplicidade bela...
De não haver nada...
De só haver... nada
E esse nada... desabrocha... e viaja...
Pelo nó inverso e imenso... dos teus dedos
Provando a corrente que passa....

Nesse vale... do nada...

O Poema dos Gestos

Existem gestos que gesticulam
O que não se diz
Gestos para o dia
Gestos para a noite
Gestos para cada momento
Que não se vêem, nem se ouvem...

E o teu gesto
O gesto deles, delas, de toda a gente
São feitos de linhas cruzadas
Como nuvens sobrepostas
Numa tela de muitos ontens

E fechou-se o portão
Que o poema dos gestos entreabria,
Anoitece aqui.. numa noite de todas as noites
E a sorte... de sortes distintas...
Entre os alpes da fantasia dos actos
Que num tornado de eloquência
Se dispersa... por coisas que não vês
E adormece... nos lençóis... que não és...
A pele... e a flor... à flor da pele...
Hesita a demora...
Ordena-se a forma do amor...
E os conceitos que conheces...
Findam... no espelho sem cor
Que a harmonia do calor.. no teu corpo
Abre essas aveludadas asas e sobe no horizonte...
Para a forma inevitável de magia...
No topo.,
Num alcance...
Um poema... dos gestos
Aqui...
Quando os gestos...
Gesticulam...

Por entre a Chuva .. a Incerteza...


Por entre a chuva... a incerteza...

De chapéu de chuva aberto
E um céu cinzento no alto
Os pássaros parados nas árvores
No ar... só os murmúrios do vento...
No ar... só um pouco de nada...
Um pouco ... de tudo...!

Ali..
No meio do labirinto
O que passou me habitava
E o que ficou no amanhã que será... talvez um ontem...
O presente que viajava...

E o moinho que ia criando a incerteza

Criaturas suspensas nas hélices, nas pás em rotação...
E um trevo feito de musgo..
Numa parede feita de tempo...
Numa montanha feita de fogo...
Era a pedra angular do existir... atirada ao vento...
E o teu pensamento pensava-se, pesava-se dentro de mim
O teu mundo em esfera... azul...
Rodopiava num instante sem fim
E os gestos
Leves, esvoaçantes... verticais...
Ocultavam-se...
No horizonte que... umbralmente... ia escurecendo...

E eu...
O Eu... era um hoje que permanecerá... nesta carne...
E a incerteza... era um agora...
Que restará... depois do sofrimento....

E a música...
Colhida, temperada, encostada à enseada dos momentos
Deslumbrava no olhar dos sonhos
Os pardais de mil cores que dançavam agitando as asas
Em cima de um ramo verde...
Com uma varanda de onde se via...
Não o fora... mas o dentro das coisas...!

E..

Lá ao fundo,
No campo aberto até onde a vista alcança
Olhava as encostas recortando os limites
Definindo fronteiras de céu e terra
Fugindo para o imenso... para o incerto...

E..
A minha vontade era...
Era... definitivamente... com toda a certeza...
Que não houvesse incerteza...
No espaço de silêncios entre a canção das tuas palavras
E o acorde pungente da memória...
E que bastasse um instante... um abraço... bastasse um peito confiante
E bastasse... um pequeno grande passo...
Um pequeno... grande salto... de coragem...
E seria a incerteza... com toda a certeza...
Dispersa... pelos grãos de areia do mundo...
E o seu efeito.... diminuído... destruído...
E o seu sabor... insabor...
E todo o ali...
E todo o lugar...
E todo o agora...
Seria paisagem ao luar
Um braço unido de terra a entrar no mar
Uma onda esverdeada de algas e medusas violeta...
E os dedos tocando de mansinho...
O mais profundo... e terno infinito do teu peito...
E ali... denso... etérico... planante... fundo... flamejante...
Com os cabelos sob o efeito luminoso do firmamento...
Entenderias nas formas das constelações...
Projectos, planos estratégicos... intuições...
De um universo inteiro conjugando esforços e emoções
Pelos sonhos...pelas verdades... por nós dois...
O âmago das coisas fosse outro, talvez um dia...
E esses gestos, então permitidos pelo mundo
E esses tempos... mais definidos.. no presente do que no futuro...
E essa tinta... essa película...
De incertezas e incensos...
Seria de outra cor...
De outro cheiro...
De outra vontade...
Se essa tinta de incerteza...
Desaparecesse... desse céu cinzento...
Ali no meio da tarde...
As nuvens voando
Os pássaros saudando a liberdade
E um salgueiro ermita na caverna da saudade...
E... os vidros do carro... bacilento... dormindo...
Salpicados de gotas de coisa alguma...
Que desse espectro ali... caía... nas planíceis do desespero...
No meio de uma tempestade vã..
Que uma vez mais, sem saber porquê
Teimava em falar a linguagem louca da incerteza
E estava chover aqui...

Estava a ouvir-se aqui...
O calado inaudível do poente...

Essa...já.. hábil mistura de cores...
Partitura humana...
Poema impossível...
De um crepúsculo a acontecer
E no invernoso estar...
Eu partia...
Com meu guarda chuva.. e o amor todo dentro de mim...
Por entre a chuva...
Partia... para um outro lugar....

Um lugar
De outros lugares...

Observar... observado...


Difundida a luz
O candeeiro cambaleava no tecto
Como se um fantasma o agitasse
Ali na noite, no relento
O teu silêncio era pedra
E os meus dedos magoavam-se
Ao tocarem o chão frio da ausência
Estremecida num manto de penumbra
E a saudade rebentava
Num passo de ave
Um jacto de avião
O céu visto do infinito
Ignorando que o infinito era o céu
E o rio corria
As pétalas das papoilas junto à margem
Bebiam da água fresca
E a erva verde...
Escondia o amor de dois escaravelhos
Que por mero acaso
Se passeavam por ali
Divagando num perfil de filósofos
Pensadores
De mãos no queixo
E olhar deslumbrado para o sorriso do sol
Pareciam pensando o mundo
Serem ignotos da observância
Que o outro sujeito
Que era eu
Os observava também
Pensando...

Talvez...
Algures...
Algum ser que desconheço
Naquele momento
Me observasse também
Num jardim qualquer que não sei qual é
Aprofundado na profundidade
De olhar os escaravelhos
Vivendo...
No seu habitat...
Secreto... (julgavam eles)

Observar... observado...

Estou...




Estou...
Apaixonadamente viajante
Entre a tremura do desejo
E o absurdo de passar horas a contemplar o nada...

Sou talvez a sombra vadia do que sou
O susto aflito
De quem me habitou...
E o amar crente... por um olhar diferente...
Que és tu... Tu..!

Sinto o mar que me agita e serena
Vagas doces que me embalam
Num balançar de encantamento e fascinação
Ternos e impossíveis gestos
Inventados por nós...
Nas terras longínquas... do infinito...

E no recanto daquela rocha
Bem perto da areia acastanhada
Despi-te no silêncio
No absoluto silêncio cantado
De uma liberdade feita madrugada
E amei-te...
Senti-me... completo...
Uno... em paz... no perfeito sentido do universo...

E ouvi... longemente de perto
O som que...o vento trouxera, decerto
O canto murmurado das gaivotas
Silvos que ecoando num deserto das coisas
Se expandiram com vontade...
Pelo corredor aberto
Que o teu coração perfeito
E o teu sabor rosáceo, cristalino... infindável...de sabor
Entreabriu... ao virar do monte dividido...
Esse monte dividido...
Que é a profunda gruta que a eternidade teceu
Nós de um destino vociferado ao relento
E o gesto ténue do abraço...
No determinante momento...

Agora...
Com o queixo apoiado...
No nó das minhas mãos cruzadas
Procuro no mapa do existir
A rota distinta que directa
Me leve a ti...

Agora...
Com um lago de poesia debaixo de mim
Oiço os passos amplamente apertados
De cem mil cordas de viola que explodem de frenesim
Talvez... da festa.. de gostar...

Talvez seja a força de te amar
Que por querer-te tanto, querer-te mais... que mais...
Faz das coisas simples... milagres musicais...
E do acaso inconcreto...
Um sentido bem mais certo
Que de alma nua... chama por ti...
Uma incerteza certa e convicta
De que és tu...
O jardim idílico dos poetas...!

E salto, disparo-me nas muralhas deste acreditar...
Sou feitiço sem feiticeiro
Sou ver sem olhar...
Sou o rio de água lenta e transparente
Que... pressente, no presente, o eloquente... de sonhar...
Que há em ti
O emanente profundo de sentir
Que se exala do teu ser... como se fosses Sol
E essa delicadeza de bailarina de cetim
Que me entrepõe o eterno
E o confirma como real...
Simplesmente... existindo ali...
Ali...

Ali
Continuo à tua espera...
Ali...

Diluído



Diluído



Dedos que vibram
Noites que sucedem o vento
E o latejar enorme, gigante
Do lacrimejar de saudade ardente
Querer-te aqui!
Amar-te a ti
E um sentir diluído no sopro
De calafrios que acontecem
De gritos e beijos que se inventam
Na tremura do desejo
Cascata trémula do fim
Uma casa de portas abertas
E entradas fechadas
Um rosto de olhos brilhantes
E palavras silenciadas
Um céu azul profundo
Mas nem uma réstea de esperança no mundo
Sem-abrigos que adormecem a um canto da cidade
E os cabelos longos, soltos, presos...
Sem vontade...
E a saudade...
A saudade na cintilância do instante
Ganha forma... na sombra da lua
E torna-se fogo... na chama acesa do fogacho de sonhos
Que acontecem ainda
Suspensos no trapézio do peito
Um grito mudo que se ouviu
Longe dali
E uma morte lenta
Oculta e escondida
Bem à frente dos olhos de toda a gente...
E quando me perguntavam: o que aconteceu...
Eu já não vos respondi...
Inerte e calado, o meu corpo abandonado
Era somente um corpo
Que estava ali...
Diluído... no fim...!

Indagando...

Indagando



Pergunto-me...
Onde estava eu...
Quando me ouvi chamar por mim?

Interrogo-me...
Quem era eu..
Quando te olhei olhar para mim?

Descalço-me...
Já descobri os sapatos castanhos e enrugados...!
Estavam debaixo do colchão do silêncio
Junto ao baú onde guardo todos os meus medos
Bem fechados e atados...
Para não me devorarem ao anoitecer...
Quando estou desprotegido...!

Dispo-me...
Já reencontrei a nudez de um princípio de vida
Estava a meio caminho entre a felicidade e o desespero
Não trazia bússola, nem relógio, nem passado, não trazia nada...!!
Trazia somente no bolso a indagação
Com que me olhando...
Me pergunto: quem sou?
Onde estou...?
Se para onde vou... lá estarás tu... ou não.. a esperar por mim?
Se quando chegar... ou partir...
Alguém irá entender a minha solidão...!?
Alguém poderá incluir em enciclopédia... este pensar..
Este agir...
Este perguntar...
Será que tu... que me lês... entendes a minha emoção...?

Talvez sim... talvez não...
Porque... eu já não sei quem sou...
Porque... eu já não a entendo...
À solidão...
Indagando...
Perante os portões colossalmente abertos...
Desta alma em contemplação...!

Será...?


Será...


Será possível...
Amar alguém tão forte assim?
Ver na montanha, a luz...
E no vale, a imensidão...
O infinito que seduz...?

Será possível...
Aconteceres em ti... tão real assim?
Sentir nas mãos... o tesouro perfeito...
Escutar na voz... o mundo todo... por inteiro...
Experimentar na cor... os teus gestos secretos...
E deixar-me morrer aqui...
Pela saudade que sinto....?

Será possível...
O horizonte estelar
Estender-se até à terra do nunca e do sempre...
Esse éden oculto... escondido... nos teus dedos de firmamento...?

Será possível...
O impossível ganhar forma em ti...
E este poeta... sem o ser...
Deixar de ser ténue... impensável... invisível...
E tornar-se parte... de um mundo real...
De hoje...
Que és tu...?

Será possível...?
Eu estar aqui, agora, a escrever, a compor, a pensar, a sentir, a sonhar...
A enlouquecer.. a viver... a falar... a sair... a chegar... a viver..?

Possivelmente... eu existirei...
Num momento que será...!

O hoje mente
É só parte de uma história
Que amanhã alguém contará...!

Ainda não aconteci...
Sou um eco do amanhã...
Avistado.. ao fundo da estrada...

Um arco que arde
Em formas que se multiplicam
Entre os olhos da liberdade...
Que se vêem e pensam...
Num ir e vir...
De maré cheia...
.
Que se vê...
Da janela que tu hás-de abrir...
No amanhecer...
Quando acordares... deitada ao meu lado...
Sorrindo...
Gracejando...
Assim... delicadamente... falando..
Doce e deliciosamente... Apaixonante...!
.
E serei eu... o teu herói... o teu Amante...
Apaixonado por ti... intenso... febril... elouquecido...
Encontrado em ti...
Esperando-te a cada instante...
E o mundo longe...
O mundo perto...
Num sentido que extravasa os sentidos...
E se dilui...
Na íris aberta e colossal...
Do vento sem som...
Que vem eterno e te pergunta... assim...
- Será...?





Pedro Campos

Conversa com um Deus


Conversa com um Deus



Porquê?
Custa tanto assim o não?
Porquê?
Será a corrida uma ilusão?

Porquê?
Veio a sorte, veio a vida
Porquê?
Se a bagagem está vazia

Porquê?
Ó Deus que te esqueces de nós, esquecendo de ti
Porquê?
Ó Doutor, mestre catedrático, que te ocupas no teu tempo melodramático
De matemáticas e ciências exactas
E te olvidas exactamente
De dares atenção a ti próprio...
E nem sequer escreves nas actas
Em cada reunião com os teus anjos
Que há guerras, que há mortes, que há sangue, que há fome
E que há gente como tu
Que se perde a acreditar
Que existe gente como eu
Gente como eu
Que acaba sempre...
Assim... como tu...
Só e perpetuada... como ausência
Para sempre...!

Como podes existir se eu nunca existi?
Como podes acreditar em mim se eu nem por sombras acreditei em ti..?
Como podes esperar que eu caia.. e me levante sozinho... se tu nunca te levantaste...?
Como podes pedir-me que te oiça e te escute...
Se continuas a falar para dentro?
Como podes querer que eu siga os teus ensinamentos...
Se só aprendi contigo a ignorar quem me chama...?
Aqui...
Omnipresente...
Quem és tu? Deus... que te ocultas em mim...
Quem és tu?
Quem sou eu...?
Quem somos nós...?

Deuses de um mundo menor
De outra esfera do existir
Criámos Deus à nossa imagem
E dizemos que foste tu que nos criaste como tu...!

Talvez...
Estejamos certos
Quando dizemos...
Que és a nossa salvação...
E não menos certos
Quando supomos...
Quem sem nós tu deixariass de existir
Sem nós... és uma história que nunca foi escrita
Sem nós... tu serias não mais que uma desilusão...




Pedro Campos

Caravela dos Sonhos



Caravela dos Sonhos


Se eu pudesse dizimar o tempo
E oscultar o triunfo da solidão
Para procurar no baralho do feno
A flor real que te brota no coração

Se eu pudesse ter asas como um pássaro
E seguir viagem por horizontes que não vi
Talvez, levasse mil sonhos na bagagem
Talvez voltasse com todos por cumprir

Se eu fosse feito dos teus dedos
E a voz não tremesse quando falas
Talvez a noite acreditasse no sentido
Que o caminho tem junto às árvores

Se eu não sentisse, não chorasse e não me doesse
A queimadura da lava que se expele do vulcão dos meus medos
Talvez os olhos tivessem outra leveza
Que seria etérea nos ondulantes divagados
Do meu ser

Se eu não restasse de mim
E pelo prado verde eu não me acontecesse
Talvez ainda houvesse a esperança vã
Que num momento fortuito eu me perdesse

Se... eu durmo o vento
Numa loucura que antecede a alma
Acorda-me de noite o grito suspenso
Que a minha boca mantém calado

Se ... nada... é nada...
E eu... nada também sou...
Dissipo-me na espuma da onda...
E no areal quente...
No rosto vincado...
Também eu... me sinto ausente...
E disparo na onda da noite
Aquilo que nunca pude ser...

Talvez o brilho fosse demasiado forte
Talvez o negro fosse demasiado denso
Talvez os dedos não me puxassem com tanta firmeza...
Talvez eu estivesse somente ali... à espera desse nada...
Talvez as cores que o espectro de luz invade
Me dissessem que já não estava mais ali a verdade...
E a hora estava perto...
E o gesto inerte
Era o nulo... o vazio... o nada...
Que me corria nas veias e me respirava

E eu morri...
Ao som daquelas palavras...
Eu morri...
Enquanto a caravela de sonhos... me deixava...
Ali...
Náufrago do silêncio..
Inaudito.. ermita..
Sob o céu cinzento...!
.
.
.
.
Pedro Campos

Tu



Tu...


O teu sorriso é inexplicável
Terno e meigo o teu corpo
De devaneio deixa o meu
Que salta pelo tempo
Pelo vento à procura do sonho

O teu gesto é furacão
Que precipita toda a onda do mar
Dedos feitos de fogo que crescem
Na noite e me fazem eterno
Quando à noite..
Te fixo, a contemplar
Sem saberes
Fascinando-me
Com a beleza mais profunda
Que existe...
... a beleza do teu olhar...



Pedro Campos

Acordo-me

Acordo-me


Acordo-me
Dissipo-me nú na noite
Sou alma despida
Espectro do sonho
Viagem astral
Experimentador de mundos

Adormeço-me
Já me vesti
Com o lençol cândido, quente
E a madrugada veio longe
Longe demais para prever
Longe demais para provar
Perto demais para doer
Fundo demais para evitar
O sopro surdo da história que se contou
O eco louco do grito que se gritou...

Aconteci-me...
Algures... dentro...
Do teu silêncio...!


Pedro Campos

Pensei

Pensei



Pensei que a noite
Seria noutro dia qualquer
Um amanhã que viria ontem
Entre as almofadas do amanhecer

Julguei que a sorte
Determinada e restrita a alguns
Não me tocasse de longe como tocou
E ficassem as minhas mãos vazias...e os meus ouvidos surdos...
De uma alma sem som...

Acreditei que o combate pacífico pela liberdade
Seria sempre encorajado pelos Homens
Mas enganei-me ao considerar real essa verdade
Afinal os Homens são cobardes
E não sabem que amar não tem alinhamento
Não tem manual de instruções...
Nem moratórias de tempo..
Que definam quem somos...

E mesmo que outros pensem em definir...
Nada mais errado poderiam fazer
O amor é como uma cigarra que canta num prado verde
Cada cigarra tem o seu som próprio...
Como cada amor tem a sua música única.... inconfundível..
E não pensem que por tentar calar a cigarra... ela deixará de cantar...!
Sei... que cantará até morrer...
Como esta alma que te ama...
Como esta voz que te chama...
Até ao tudo... do tudo...
Expressará sem temor...
Este sentir, este remoinho, esta revolução...
Este querer-te tanto, este fogo que arde em fulgor e calor...
Este amor...
Amor.. por ti...
Nunca calará...
Só quando findar...
O Eu.. que habita aqui.

Pedro Campos

Navegar


Navegar


Fecho o livro do tempo
E o tempo já passou
Ainda agora tinha desfolhado algumas folhas velhas
Com histórias que o teu olhar presenciou

Talvez... já não haja vento
Talvez... hoje a fragata não saia para alto mar
Talvez... o meu leme esteja danificado
Pois perdi as coordenadas...
Perdi o rasto do teu navegar...

Ontem... para encontrar o destino
Limitava-me a olhar pelo monóculo de vidro baço e riscado
Deixava que a maré... me levasse onde tinha que ir...
E ficava de olho aberto às ameaças dos predadores dos oceanos...
Monstros, Piratas, Homens não Humanos...
Tudo aquilo que existe hoje...
Em terra e mar, em céu e ar...
Em todo o tempo, de fogo tamanho...!

Hoje... preciso de encontrar o destino contigo...
Procuro em cada ruína do passado
A melhor forma de encontrar o templo
Onde possa falar a Deus
Onde possa entendê-lo...
E libertar-me deste "não poder"
E amar-te... dar gesto ao sentir...
Sem que ninguém possa destruir...
Essa coisa bonita... sincera e profunda...
Que é amar-te... assim...

Agora... sei que a madeira do casco... está quase quebrada
E as ondas vão-se tornando cada vez mais fortes
Agora... sei que se aproxima o fulcro da viagem...
Aquele momento basilar
Em que assenta tudo aquilo que virá...
E sem saber nada de futuro... nem conjunturar ou prever o que há-de vir...
Sei... que levarei esta fragata onde tiver de ir
E destruirei amarras de preconceito
Caminharei por entre lâminas de egoísmo e inveja
Delapidarei a pedra fria da ignorância, da cegueira...
E seguirei ao leme... toda a vida... que me resta...
Por ti...
Por nós...
Sem cessar...
Até ao último suspiro... deste respirar...
Eloquente... de existir..
Dedicado... a te amar...


Pedro Campos

Nada

Nada...


Sou nada...
Sou nada de mim...
Um templo deserto
Abandonado ao relento
Na madrugada do tempo
Em que o tempo devorou a força
Que habitava imensa aqui...

Eu sou.. nada...
Sou o nada que fica quando o tornado nos atinge...
O nada que resta quando a solidão nos beija...
O nada que sobra...quando partes...
O nada que grita... quando choras...
O nada que chora... quando não gritando... sofres...
O nada... vazio... vácuo... ausente...
O nada... sou eu...
Nítido nulo permanente...

O nada.. sou eu...
Este espírito velho
Enclausurado num corpo novo
Prisioneiro das condições de outros
Lutando por transformar-nos em sonhadores...
Para que amar... e viver... passem a ser sinónimos...
De coisas dimensionalmente diferentes...

E assim... adormeço...
Num nada...
Que perdura...
Na tua ausência...
Na própria ausência de mim...
Eu sou nada...!

Nada.


Pedro Campos

....

Não encontro palavras certas
Nem métrica adequada
Ao que sinto
Aqui dentro

Desfoca-se a visão
As lágrimas escorregam pela face
E rio... sorrio... de alegria...
Tu estás aqui...
Tu estás aqui...
E eu posso abraçar-te...
Tu estás aqui...!

Estás aqui...
Eu estou em nós
O nós absorve-se em ti
E nas brincadeiras do sonho
Adormecemos abraçados...
E amanhecemos sentidos...
Entre o sol da manhã e a lua da noite
E eu amo-te...
E nada mais posso acrescentar...
Somente... que te amo...
Profundamente...

Amo-te...
Profundamente...


Pedro Campos

O Ângulo Morto do Amor...



O Ângulo Morto do Amor...



Folhas de papel que se dobram
No agitar da esquina
Um mendigo abraça uma árvore
E um veado corre no asfalto
À procura de um relógio suspenso na moldura
Do céu

Um galho de pedra
Com estátuas de pedra
E lágrimas de pedra
Escondem um interior de vida
Um retrato a carvão que nasce na minha mão
E a saudade de quem fui há 1000 anos atrás
Presa na fotografia do que serei
Amanhã...

Às vezes...
Deslumbre em ti...
A orvalhada folha de eternidade...
E o pólen secreto de respirar...
É o momento chave desta vida...

Às vezes...
O amor tem um ângulo morto
Oculto da visão
Como um espelho que esconde
O que está nos dois lados do coração...

E assim...
Por mais que a nota musical vibre
E o tom seja ténue ou forte
O piano deixará sempre entre o sustenido de cada nota
Uma nota inaudível por descobrir

E assim...
Por mais que o verso possa crescer
Será sempre pequeno demais
Para o sentir que nele possa haver

E aí...
Também o vento
Que nos toca
Deixa sempre versos em branco
Por cumprir

Os mesmos que ontem... hoje... ou amanhã...
Farão parte da história
De mais um ângulo morto do amor...
Que acabaste de pressentir...!

E nesse instante...
Também tu...amigo...
Deixarás na fronte do espelho...
O ângulo morto do amor..
Que também existe
Dentro de ti...


Pedro Campos

Carrocel de Incertezas



Carrocel de Incertezas


A cabeça girando em redor da lua
Como um carrocel de incertezas
Que agitadas percorrem todas as dimensões do espaço
Todos os espaços do tempo
Todas as velocidades que um movimento
É passível de conceder...!

E a saudade...
E o gesto...
E o abismo...
E o grito de partida...
Além... tão longe do destino...
E o relâmpago na noite
Entre o fogo alheio do crepúsculo
E a protecção secreta da andorinha
E a madrugada fria
E as paisagens desenhadas com as mãos
Numa tela de verdes pastagens
Com árvores de copas luxuriantes
Entre as nuvens que aos olhos das aves...
São simplesmente uma ilusão...
...
... E... arrepiam-se os pêlos...
Os poros emergem do horizonte dérmico
E o celeste entusiasmo... com que vibra o sangue...
Acelera o metabolismo da alma... ali...
E... os meus dedos desabrocham...
Desabrocham...
Desabrocham...
Na escuridão perpétua
De um velho portão
Escancarado... para o nunca...!

Com uma tristeza quase matemática
Distribuo pelas montanhas do caminho
O Cloreto de Sódio em gotas
Que enchendo o cálice de vinho
Explode estridente...
Ali... despertando todo o vento...
Abraçando todo o sentimento...
Que dizendo se refaz
Do nunca dito em mim
Do que se fez e se quis
No que se deixa e não se diz
Como poema deserto das horas em silêncio
Sucumbindo em ternos e vagos
Instantes
Do indizível que se notou aqui...

E num último relance...
Numa última análise...
Faço versos sem harmonia
Que absorvem harmoniosamente
As nuances incoerentes
De um discurso que junta nas mesmas linhas
Palavras simples e palavras solenes
E... acontece poesia...

.. Acontece poesia...
Acontece alguma coisa... ali...
Alguma coisa... talvez sem nome...
Algo que bate e ritma dentro de uma alma...
E que se agita quando sente no outro olhar que ama...
A reverberância da chama...
Que te chama...
Que me chama...
Quando bebe... da chama...
Do clamor que me agita e entontece e se inflama...
Deste querer, de querer-te mais e mais..
Do que alguma vez o horizonte da lógica possa sequer... entender...
Entre a dor que se sacode como um cão molhado...
À beira do precipício do ontem... junto ao lago...
E os lábios ainda húmidos da mulher do meu sonho... na baía dos desejos...
E soluço...
Soluço...
Sei que há muito mais além da superfície espelhada
Ambígua e embaciada
De tudo
E de nada...

Sei... que há muito mais... além da transcendência molhada
De tudo..
E de nada...
Nessa fragrância delicada.. genuína e emocionada...
Que é este meu amor por ti...
Este meu sentir...
Que rodopia
Do início ao final do dia
Como um carrocel de incertezas
E a cabeça girando em redor da lua
Com a única convicção residente em mim... que é amar-te...
E a única certeza: procurar-te até ao findar do último sopro ardente
Que ainda houver... no derradeiro suspiro...
Dentro de mim...!

Tu... dentro de mim...
És a locomotiva... do meu sonho...!



Pedro Campos - Amo-te...

Assim...

Assim...


Um nó de dedos
Os dedos suspensos
Na margem de um ar
Que sucumbe no despoletar
Do silêncio eterno

Um estalido ao longe
É como uma árvore que cai
No seio de uma floresta perpétua
Entre as noites do tempo
Vociferando a imensidão
E o teu rosto no céu
Procuro por ti em cada instante do meu vento
E adormeço por ti...
Adormeço por ti...
Sonhando-te...
Na demora longa de buscar-te... assim...


Pedro Campos

Sem título




Olhos vagos
Pingados de dor
Explanam no planalto enfermo de infinito
A saudade do teu sorriso

Tenho medo
Medo do mosaico de arte
Que expressa o meu sentido
Na tela rasgada... na minha noite vadio...
Adormeço e acordo...
Com uma estranha necessidade de me isolar... de novo...

Sou negligente do silêncio
Preciso da armadura incerta do tempo
E durmo mais tranquilo com a tua mão no meu olhar... assim...
Mas vou partir...
Irei partir...
Sou perpétuo no vento
Talvez tudo de mim seja nada em ti
Talvez... se dependesse do céu... eu já não teria sonhos para sonhar
E talvez... os meus dedos... não pudessem mais
Tocar-te...


Amo-te...


Pedro Campos

Foi ontem...



Foi ontem



Foi ontem...
Que uma imensidão de asas esvoçantes
Cruzaram um céu azul de verão
Com penas feitas de papel
Entre as nuvens deslumbrantes de algodão...

Nos olhos tinham o brilho inocente
De quem recebe um primeiro beijo sem esperar
E cem mil bússolas rodopiavam ardentes no interior da alma
Que conduziam a vida em chama para longe dali...

E todos os pingos de aguarela...
De um artista sem nome...
Pingavam abandonados, no chão...
E todos os gestos eram harmoniosos
Eram sombras de luz
Que ecoavam na invariância de um espectro de cor sem cor
Imanente à pigmentação
Da fragrância eterna
Das tuas mãos nas minhas mãos
Da tua verdade na minha emoção...

Todos os silvos eram profetas
Eram gritos de renúncia à herança da dor
E o espelho de fantasia
Emergente da atmosfera do teu sorriso
Reflectia de modo enebriante
A latitude da liberdade
Que nunca encontrei
Aqui...


Pedro Campos

O Lago

O Lago


Cai do lago do tempo
O volume denso e provocante
Da loucura sentida
Entre o tecto da alma
E o latejar da vida

Cai... no infinito do vento
As gotas cadentes de perfume de ti
Unguento e sagrado
Como um celeste momento
Em que começa a fantasia
De um gracejar eloquente
De ser-me presente
Fazendo instante
Semi-nú no pátio dos sentires
Com as portas escancaradas
Para o sempre...

Deleito-me... nesse lago
Deslumbrante em ti
Segundo as leis da harmonia do universo
Disparo-me com sentidos
Os trans-sentidos de quem eu sou
E sou eu em ti
E amo-te simbioticamente
Fascinando-me... em nós...

Deleito-me
Quando o gotejar do silêncio dos teus lábios
Cai... nesse lago...
De beleza ínfima...
Onde te desejo...
Profundamente...
A cada instante...

Amo-te...


Pedro Campos

Sei...

Sei...


Sei
Que escuto às vezes o silêncio
E penetro sem avançar
No seu sentido

Sei
Que permuto todo o meu tempo
À conquista ávida de vida
Na busca desta viagem percorrida
Nas asas do vento

Sei
Que por mais que saiba
Tudo o que sei
Evapora e acaba
Na trilha
Do que nunca pisei

Sei...
Que te amo hoje
Mais do que ontem
E amanhã
Mais do que hoje...

Sei...
Que a vida é um ciclo em movimento
E que eu, como aquelas árvores ao fundo
Como aqueles pássaros no céu
Ou aqueles golfinhos no oceano deslumbrante...
Amanhã...
No amanhã... que virá...
Também eu já não estarei mais aqui...

Sei...
Que no seguimento do rumo estabelecido...
Serei somente...
Um recorte rasgado, húmido e talvez cansado
Em cima de uma mesa...
Uma cor incolor, transparente, sem odor
Um rasto ténue do passado
Com alguns grãos de areia à mistura...

Sei que...
Amanhã...
Serei somente mais um nome esquecido
Apenas mais um poema perdido em cima de um piano
Um outro livro com pó dentro de um baú velho
Apertado entre as memórias do espírito...

Amanhã...
Serei apenas...
Os ecos que ficaram...
De um grito...
Os murmúrios da melodia de um pensamento...
Registados... olvidados... mumificados...
Na ângular pedra filosofal...
Descoberta oculta entre as paredes e o tecto
Dessa caverna secreta do sonho
Onde se escondem e guardam
Todos os tesouros desconhecidos
Que faltam descobrir...... dentro de nós...
De todos nós...!

Mas ainda assim...
Amanhã...
Quando já tiver partido... e ultrapassado a linha do horizonte...
Com a Lua a iluminar o caminho
E estrelas mudando de lugar...
Ainda assim...
Continuarei a amar-te....
Imensamente...
Profundamente...
Como ontem...
Como hoje...
Como amanhã...!
Como sempre...


Pedro Campos

Talvez...


Talvez...


Tremem-me as mãos
As pálpebras estão cerradas
Ao longe o nevoeiro adensa-se
E eu fico com frio...

Com frio...
Perco-me na pedra gelada
Em que estátuas de ontens
Se fixam alucinadas
Entre a neblina que fica...
E tudo aquilo que nunca vi...!

Treme-me a face...
Os olhos choram... choram... choram...
Os olhos caiem-me da face...
A face perde-se nos olhos...
E eu sou personagens que nunca me foram...!
Personagens que nunca são...

Dissipa-se a pele...
Num terno toque, a volúpia... o desejo... a ternura...
Dissipa-se... o gesto...
Os brilhos demoram
Sou exausto no momento
E nesse intento de louco prégado na praça alada
Acabo-me no fim
De um princípio não iniciado
Nunca terminado... indeterminado
No dentro do dentro de mim...!

E ali...
Ali...
Ali... a rebeldia inocente deste meu olhar
A vontade quente de te amar
A sinceridade plana e recta de te querer
Toda a força de toda a luta
Que esta luta pode ter
Emana saudades de ti
Saudades de nós...
Saudades de te abraçar...

E fecho a porta
A música aglutina-se
Deixei presa nas cordas da viola
Toda a inspiração que tinha

Fecho a porta
Os olhos já não têm mais água
Todos os rios da alma se exalam na sala do medo
Todas as lagoas do tempo
Secaram sem ti
Tudo muda... quando não damos a mão ao céu
Tentando acompanhar as ondas de vento
Para o Norte do existir...
No instante certo....

E essas lágrimas
Essas minhas, nossas, tuas... minhas lágrimas...
Minhas lágrimas rolam pelo precipício
Ondulante do meu corpo
Abrindo-se à frente
Num abismo anguloso
Ruidoso absinto
O sopro, o grito...
Na incoerência do amor e das almas humanas
Mais límpidas
Mais doces
Aqui
Ali...

Talvez eu não saiba nada
Do tudo, de tudo que julguei saber
Talvez a tua ausência de palavra
Seja o silêncio mais vocifrante
Que a minha alma alguma vez ouviu dizer

Talvez... eu não mereça o céu
Dessa luz que transpiras...
Talvez... tu não queiras dar-me a chave
Do profundo do teu mundo... da tua vida...

Talvez...
Talvez...
Talvez eu chore... por te amar...
E não seres tu a dizer
O que acontece aí...
Dentro do cristalino cintilante do teu olhar...

Talvez...
Talvez... a porta ausente...
Entre-aberta para sempre...
No corredor longínquo da vida...
Talvez...
Decerto tu sabes...
Mas digo-te... agora mais uma vez...
- Amo-te...
Na transcendência da imensidade...

- Amo-te...
E tremem-me as mãos...
Ao escrevê-lo...
Às vezes também tu pareces ter medo...
De dizê-lo...
- Amo-te...


Amo-te...

«Sabes, pode até haver um destino traçado, mas se ficarmos ambos sentados no sofá a olhar para a parede branca e nua... o que quer que pudesse acontecer... fica parado....! A vida pode não depender só da nossa vontade, mas os nossos actos dependem só de nós, as nossas decisões, e em última análise, aquilo que cada um de nós é, depende das escolhas que fazemos... dos caminhos que seguimos... de tudo isso...

Eu amo-te...
Eu já escolhi o meu caminho...
E tu?»


Pedro Campos

Ouvir-te...


Ouvir-te...


Queria ouvir-te
Sem o filtro da censura
Queria ouvir-te
Na linha da ternura
Queria ouvir-te
Sem ter medo de seres
Queria ouvir-te
Na plena epopeia de te saber

Queria ouvir-te
Dizer o meu nome
Queria ouvir-te
Falar-me de ti
Queria ouvir-te
De alma aberta, asas despertas
Queria ouvir-te
Sem ter medo de mim

Queria ouvir-te
Tu por inteiro
Queria ouvir-te
Sem teres medo de ti...
Queria ouvir-te
Na planície do sonho
Queria ouvir-te
Amando-nos aqui...

Queria ouvir-te
Sem cessar
Ouvir-te
Sem parar
Falar-te, sentir-te
Queria estar contigo algures
E num beijo
Num beijo eterno...

Queria
Quero
Ouvir-te...
Sem medida...
Sem espaço, sem tempo...
Sem circunstância...


Pedro Campos

O Trapézio do Medo...

O Trapézio do Medo...


Dentro da minha pele
Existe um lugar oculto
Que rodopia e respira
Que transforma tudo
Apesar do medo que sinto
De te perder

Dentro do meu peito
Existe um quarto vazio
Que espera pela luz
Que espera por ti

E quando eu fecho os olhos
Sinto a tua falta aqui
E dentro deste peito apertado
Dentro desta ausência de mim
Percorro-me no trapézio do medo
E deixo-me renascer dentro de ti...

Nesse músculo timbrado de equilíbrio vacilante
Nesta gota de cor
Sinto o temor nos ossos
Sinto a fome de ti

E num toque de pele
A ternura emerge
De um oceano translúcido
Onde fico transparente
Nesta viagem de sempre
Nesta viagem por ti


Pedro Campos

Um grito...

Um grito...


Um grito
Lancei um grito no corredor do tempo
Bradei a minha dor, a revolta, o medo
Deixei ouvir-se em todos os pontos cardeais
A minha raiva de estar aqui
Neste mundo que me quer obrigar
A não ser feliz...

Um salto
Lancei-me no monte, o precípicio, o abismo
Deambulei a dor da queda na substância de estar vivo
E corri ao teu encontro, mesmo com medo e ferido
Corri ao teu encontro
Querendo ser feliz...

Um sonho
Lancei as minhas mãos na direcção das tuas
Por entre as curvas da maresia
Despi os búzios do areal
E cumprimentei as algas luzidias
Abracei o vento
E sorri para ti...
Com este teu sorriso... que te lanço sempre...
Apaixonado... amante... fascinado em mim...

Um todo
Deixei lançado na correnteza da maré
Um todo de tudo e de nada
Uma amostra encriptada das nossas lágrimas
E um poema desbotado na saliva sagrada do nosso beijo
Ósculado na ternura do sentimento...
E amei-te...

Amei-te...
Para além de tudo o existente e inexistente
Amei-te...
Para além das posses que o amor consagra
Amei-te...
Pobre... mas rico de nós...
Amei-te...
Ferido... mas de fé inabalável em ti...
Amei-te...
Amo-te...
Transcendentalmente... a qualquer dimensão do mundo e da vida...
Amo-te... transdimensionalmente... para a direcção total...
A caminho do sublime...
Amo-te... no infinito celeste que és tu...
Para mim...
Meu amor...
E grito...
Por nós...
Por ti...
Por mim...
Grito...

Amo-te... profundamente...


Pedro Campos

Dia-a-dia


Dia-a-dia...


É sem ti...
Este dia-a-dia cansado
Sem luz nem brilho
É um caminhar curvado
Que me aliena em si
E me submete ao passado...

Todos os muros de todas as portas
Se abrem e fecham quando olho para eles
Parecem lâminas de aço
Que me assustam com o temor de te perder

Dia-a-dia, sou eu aqui
A ausência limiar da pedra
De um frio de cortar
Dia-a-dia, sou nada de mim

Mas vem a esperança e motivam-se os sonhos
Os olhos voltam a brilhar
Quando se faz perto esse dia
Do dia-a-dia de voltar a estar mais perto de ti
Meu doce amor
Minha doce magia...



Pedro Campos - Amo-te....


Tudo se torna melhor quando estou contigo, os dias fazem sentido, o universo faz sentido... tudo faz mais sentido.... e seria pura estupidez... abandonar-me sem ti... sem lutar por nós... sem lutarmos....

Dança de nós...



Dança de nós...



Levitas sobre o chão
Com os dedos dos pés esticados
Percorres descalça a sala na escuridão
E esvoaças ali à nossa procura
Com os olhos transpirados...

No vento tens o elevar-te no céu...
Na noite tens o mistério que é só teu..
No dia tens o sol e os pássaros e todas as montanhas da terra para olhares
No sono tens o sonho de uma dança sem fim
De constelações intérminas...
Em que crepitas como o sol mais radiante...
De todos os sóis possíveis de imaginares...
E tens-me a mim...
Sempre desejante de ti...
Em todos os momentos...
De todos os lugares...

E com o teu sorriso quente
De forma alada e sorridente
Dás-me a mão e encostas o teu rosto lindo
No meu semblante
E embarcamos juntos numa dança viajante...
Quais caravelas de infinito
Navegando ao sabor da eternidade...

E...
Sinto o teu calor...
E...
Sinto a tua pele macia
Sinto.. o teu gesto subtil, ardente...
Que conta tudo sem nada dizer
E eu... sou feliz ali...
Naquela dança unida...
Com passos compartilhados...
Numa alegria de encanto e fascinante luz...
Brilha expoente... na tua voz..
Também o verso poente...
Do teu sol de cor...
Nesta dança de nós...

E sei... que te amo...
Amo-te na transcendência de todo o valor que amar-te pode ter...
E envolto na tua ternura...
Embriagado pela nossa ternura...
Visito passadas de pés... em ritmos de pêndulo...
E o ritmo da música...
Tão nossa, só nossa...
Marca as pausas nas frases não verbais que dizemos...
O infinito alcançado...
Sem soletrar uma palavra...
O beijo iluminado...
De dançarmos até à alvorada...
O amor que fazemos...
As histórias que contamos...
E em cada instante...
É essa a dança encantada...
Em que pernoitamos...
Os braços suspensos... para o amanhã...
No parapeito dos nossos olhos...
Olhando o que somos...
No que temos...
A magia celestial...
De corrermos enfrentando tudo...
Como um rio que sem limites
Alcança a foz...
E serena a alma ali...
Como eu e tu...
Nesta dança de nós...

E levitas sobre o chão
Molhada do nosso amor
Cheiramos ao conteúdo de nós próprios
E nesse instante....
Também nesse instante...
Percorremos juntos...
Descalços, com os dedos dos pés esticados...
A sala na escuridão...
E esvoaçámos ali... em todo o lugar... à nossa procura....
Com os olhos transpirados...
Alcançámos...
A dança da nossa imaginação...
Esta dança...
Canção sem voz...
Esta dança...
Tua e minha...
Esta dança de nós...!

De nós...


Pedro Campos.. - Amo-te...!

Amor...


Amor...



Acordar e despertar para a vida
Ser consciente da lucidez cálida
Com que viver faz viver
Com que amar-te me faz vivo...

Viver-te faz-me compreender a vida
No explanar inquieto do seu próprio acto
Na emoção da sua própria emoção
E tu...
És o ventre em que o embrião
Da lucidez feliz da criação...
Acaba por suceder...

Amor... és tu a ilusão... e o real...
O meu amor real...
O meu rumo...
A direcção...
O caminho...
A paz...
A felicidade...
A imensa presença de alegria...
A brincadeira...
A eternidade...
A verdade...
Brota em ti...
Só de ti... meu doce amor...
E tu és tudo o que sonho...
És tudo...
Para mim...



Pedro Campos - Amo-te...

Amar-te





Amar-te...


É urgente dizer-te
O quão é eloquente amar-te..
O amor que tenho por ti...!

Dispersa na sombra...
A ausência louca
De me ter em ti...

Sou... da noite...
E amar-te é o meu fado feliz
Ter dor de querer ter alegria
Ter alegria na dor de amar
Ser feliz na fantasia
De querer ser dor de amor
No limiar confuso de um olhar...

E tudo isto é assim...
Amar...
Amar-te...!


Pedro Campos - Amo-te...

Hoje tentava escrever-te um poema...


Hoje tentava escrever-te um poema...


Hoje tentava escrever-te um poema
Não queria um poema qualquer
Mas um especial... só para ti...
Um especial como todos os especiais que te escrevo...

Hoje tentava escrever-te um poema ...
Mas as palavras não surgiam
O título, já tinha pensado nele
Seria.. «Amor é...»
Mas as palavras não vinham

Hoje tentava escrever-te um poema...
Daqueles que te provocam um arrepio na pele
Daqueles que são feitos de nós os dois
Transmutados na filosofia perfeita
De amar alguém...somente...

Hoje tentava escrever-te um poema...
Um poema que vibrasse na tremura da noite
Com palavras estruturadas em cambiantes de emoções
Enlaçadas ao infinito pelas linhas invisíveis do sentir
Essas que nos unem...
Essas que nos fazem sorrir...
Essas que são tudo o que nós somos...
E que estiveram em todo o lado a que nós fomos
E testemunharam todos os sonhos
Todos os beijos, abraços, músicas, desejos,
Todos os quartos, todos os horizontes, todas as paisagens
Todos os risos, todas as lágrimas
Todos os medos, todas as esperanças...
Todos os todos, todos os nadas
Todos os dias e todas as noites...
De que se compõe este poema ..
Esta vida..
Este amor...
Por ti...

Hoje, tentei escrever-te um poema...
Os dedos choraram gotas de cor
As unhas morderam-se entre os lábios que te beijam o sabor
E os olhos foram tudo num alento de verdade e calor
A imensa intensa sublime elevação perene
De te amar tanto e tanto
Tão fulgorantemente
Entusiasticamente o teu poeta
Apaixonadamente tu
A minha poesia...
Hoje tentei escrever-te um poema...
E não sei se sei
Se quem fez isto foi poeta
Ou somente sonhador...
Mas sei... tentei....
Hoje...
Escrever-te um poema...!


Pedro Campos - Amo-te...

Borboleta Lilás - és tu...


Borboleta Lilás

No rebordo da janela
Existe uma asa a bater
Em redor das pétalas alegres
Uma ternura doce de mulher

Com cores feitas de sonhos
E o volume à dimensão da vida
Gestos de infinito
No mundo secreto do amanhecer

Desceu sobre a planície
Pintando de cores
De outras cores
As pétalas já pintadas das flores
Com um fogo imenso
Intenso
De doçura e tranquilidade

A doçura da borboleta de cetim
Que voando ao ritmo do vento
Se movimenta numa dança sem fim

Voa, abre as asas
E ergue-te na voz
Borboleta lilás
Canta, canta a cor
Do teu coração quente
Verdejante
Semeando amor

Voa, abre as asas
Sacode a membrana do tempo
E pequena, faz-te grande ao vento
Borboleta lilás...

Borboleta lilás...
Porque foste embora?
Porque partiste...?
Quero que me respondas...
Borboleta esvoaçante...
Canta... e voa... dançante...
Em mim...

Borboleta lilás...
Porque foste embora...?
Porque não voltas...?
Que aqui...
Aqui...
Ficarei sempre no mesmo lugar...
Olhando o horizonte...
E esperando...
Por ti... ver-te chegar...

Esperando inelutavelmente
Por ti...
Porque seja na seara
Seja no campo
Ou no areal
Só te quero ver regressar
Borboleta lilás...

E quando essas nuvens te trouxerem
E os teus olhos brilharem no eco da vida
Transformarão os meus olhos
Em vida plena a vibrar
E seremos.. eternos...
No percorrer do caminho...
Para o nunca acabado...

Borboleta lilás
Não te deixes cair na sombra
As tuas cores só são luminosas
Quando entre a estrada e a ponte
De um caminho sem rumo
Se sente a tua energia
Quando alegre sorris...

E nesse percurso de eternidade
És tu... a força imensa e poderosa
Da simplicidade..
És tu, borboleta lilás
A mensageira da sorte
És tu.. da cor
Da tua cor preferida
Borboleta lilás
Voa...
Voa...
Voa...
Quero voar-te...
Até ao fim de mim...
Até ao fim da vida...!

Amo-te...



Pedro Campos


Sentir medo...



Sentir medo...


É doloroso sentir medo
Quando o medo que nos dói
É um medo diferente dos outros medos

É o medo de perder o que nos é mais importante
O medo de que a chama que se acendeu
Trema e se apague com a ondulação da maré
E tudo o que sou
Tudo o que fui...
Se desvaneça
Nos sonhos que sonhei

Vejo, as folhas das árvores cairem
Vejo, o vento levar os segredos por canais de solidão
Por lugares onde as almas já não passam...
E vejo... abandoná-los ao tempo
Fazendo-os velhos, usados, cansados...
Deixando-os perdidos...
Longe de tudo
Longe de si próprios...

Vejo-me... na colina da ausência
Vejo-me saltar para o que não existe
Vejo, que sem ti, o olhar não precisa mais de olhar
E o sentir, não tem mais forças para sentir
Para sentir
Para se unir
Num mundo sem ti...
Pedro Campos

Palpitação...


Palpitação


Palpitação
Algo estremece na noite
É certamente um sonho vão
Mas talvez um pesadelo arriscado
Em que o medo de te perder
Vem em bolina à superfície do oceano

E agita-se a maresia nocturna
Caiem as gotas de chuva no colchão
E a velha almofada afasta-se da estrada
Num movimento de ascensão

É terrível visualizar o invisível
Testemunhar realidades paralelas
É destruidor, acordar-me em lágrimas
Com o medo de que amanhã
Não me procures mais
Na morada sem código postal
Que é o meu pensamento livre..
O meu pensamento....
Sempre

Sempre...
À espera de ti
A minha alma sem sítio
O meu sonho sem muros
O meu amor sem distâncias...
Que és tu...
O meu doce amor...
Com cheiro de eternidade...!


Pedro Campos

Quem sou eu?


Quem sou eu?

(...)
Pergunta inconclusiva
Essa que nos questiona sobre quem somos
A dúvida existencial sentida
Que confronta o estranho que nos habita
Aquela personagem mítica que nos é
Com a face conhecida daquele que somos
Como se fossem habitantes de um mesmo prédio antigo
De uma mesma rua de calçada
Olvidados na penumbra da solidão
Em instantes arrependidos

Aí... nesse monumento longínquo
Lembras, esquecendo...
Tudo o que ficou para trás...
Levado pelo tempo deserteficado
Esse que revolve tudo o que existe e não existe
Entre a terra e o céu
Dentro das ondas do mar ou do vento do mundo
E que me permite... assim...
Responder à tal pergunta inconclusiva...
Quem sou eu?
(...)

Este Sou Eu...
Sou ninguém... e sou toda a gente
Um murmúrio de fado
Um pedaço de vinho
Uma forma de vento
Um ritual de alquimia
Uma sombra com luz
Um rasgo de sonho
Na eternidade das coisas finitas
Que se prolongam pela força da vontade
Para o transcendente de eternidade
Que há em nós...
Que há na voz...
Daquilo que somos
Sendo... Eu... inconclusivo
Perguntando...
Quem sou eu?... mais uma vez...
E em nítido nulo te respondo...
Não sei quem sou...
Talvez... tudo...
Talvez nada...!
(...)



Pedro Campos

Colina desgastada...




Colina desgastada...



Eu penso-me aqui
Dedilhando palavras sem sentido
Reanalizo o grito
Do fim de mim em mim

Talvez não me sobre mais tempo
Talvez o tempo não seja mais meu
Esse que um dia corria livre pelo prado da imaginação
Esse que um dia...
Era o meu tempo.. sem nada mais a dizer

Hoje... preparo-me para viajar
Não sei para onde vou
Nem onde vou ficar
Mas o meu tempo acabou
De hoje em diante
Não sou mais eu
O pensamento do que sou

Sou somente uma colina esculpida

O resto de mim que ficou.



Pedro Campos

O teu olhar ali...

O teu olhar ali...


O teu olhar ali
No nosso tempo sem tempo
É fascinante
É mágico...
É tocante...

Não sei o que dizer
Quando estou sem ti
É como se cada coisa fosse menos bela
E o meu sorriso demorasse mais
Para se sentir

Fazes-me profundamente feliz
E os teus beijos
Os teus gestos
O amor que fazemos
O teu carinho...
A cumplicidade de nos conhecermos
Faz-me... sentir vivo...
Faz-me sentir bem...

És o expoente máximo dos meus sonhos
E a loucura talvez lúcida
De que a vida é breve demais
Para não estarmos juntos...
Para não aproveitarmos
O mais breve dos instantes
Dos nossos tempos...
Em nós...
Amo-te...
Amo-te...
Pedro Campos

Porquê...?


Porquê..?



Porquê...?
Porquê as lágrimas?
Porquê a dor?
Porquê?

Porquê...?
Porquê o vento....?
Porquê as mudanças do tempo..?
Porquê a ferida aberta no peito?
Porquê?... Porquê?..

É de noite e estou só...porquê?
Sou arrepio que queima... porquê?
Tu estás aí... longe...
E aqui... repete-se a ausência em mim...
O estar sem estar...
E saber-te... algures... longe...

E choro...
E dói...
Porquê...?
Porque é assim...?
Porquê?

Pergunto-me... na noite... sobre as perguntas que me invadem...
E preparo-me para dormir...
Esperando ainda algo vindo de ti...
Mas não veio nada...
E durmo...
Descanso...
Deito-me... na extensão arenosa do pensamento...
Enleado... numa música... envolvente...
E questionando-me... sobre... tudo isto...
Tudo isso...
Perguntando-me...
Assim...
Uma e outra vez...

Porquê...?



Pedro Campos

Acordo com o rumor do gelo


Acordo com o rumor do gelo


Acordo com o rumor do gelo
Um frio que me abana
Uma rotina que me agita
O despertador desapertando os nós da tranquilidade
E contigo... dentro do meu sonho
Pernoitando no abrigo secreto
Do meu peito quieto

Deixo as mãos mostrarem-me o caminho
E sigo em direcção ao sol
Numa estrada de alcatrão molhado
E pelo caminho árvores de sombras que se movem
E espíritos de sempre
Ali... vacilando entre o passado e o presente
Como se tivessem deixado
Alguma acção pendente

E olho-me no retrovisor
Vejo-me... mas não me vejo
Eu já não estou ali....

Talvez... tenha adormecido ao teu colo
Talvez... tenha ficado diluído nas teclas do piano de cauda do nosso jardim
Talvez... me tenha olvidado na penumbra do tempo
Talvez... me tenha esquecido lá atrás... de mim...

E assim... antecipo a chave que abrirá a fechadura irreverente da inspiração
E acumulo-me... em mim... como um lago desértico
Onde a aridez da visão obscura do mundo
Me rarefaz o agir e me torna transparência invisível de mim
E sou neutro...
Sou invisível...
Trespassável no rotundo circular movimentado do movimento articuladamente contínuo do universo
Sou despreocupadamente alternável
Numa engrenagem que me repele
Por não engrenar na sua medida

Por não me encaixar na sua estrutura

Por ser eu... parte de mim

A loucura...


A loucura...

Sou eu...aqui...



Pedro Campos

O Silêncio absurdo do Silêncio - I


O Silêncio absurdo do Silêncio ( Parte I)


Bebo o chá quente
Aqui neste sofá
Fecho por instantes os olhos
E sou metamorfose do silêncio...

Tenho a pele do silêncio...
E a voz do silêncio...
E os gestos parecem-se com os do silêncio...
E todo o som ecoa em mim
Numa acústica de silêncio
Como se o silêncio falante do meu silêncio
Fosse um verdadeiro som calado
Como o som genuíno e original do silêncio
Que omite até as nuances de silêncio...
Mesmo quando no mais profundo, surdo e tenebroso silêncio
Dou por mim... com um pouco mais de silêncio...
A quebrar o silêncio que havia antes
Na distinção indistinta de silêncios múltiplos dentro desse silêncio absurdo de silêncios
Cambiantes de som e ruído
Que se extravasam do que são e do que não são, do que poderiam ser...
Na oração paulatinamente indizível
Que inelutavelmente
Faz do silêncio
O ruído mais estrondoso e eloquente
Que as almas poderão produzir...

Um som sem som...
Uma mensagem sem voz...
Um querer sem palavras...
Uma melodia sem canção...
Um ouvir que não se ouve...
Um calar que tudo diz...
Uma imobilidade em que tudo se move
Uma monotonia em que tudo acontece...
Num silêncio como esse
Em que sem um único fone ou tom ou nota sonora
Expressamos tudo o que sentimos

Silêncio...
Contar... não contando...
Dizer... não dizendo
Mudar... não mudando...
Nesse silêncio absurdo do silêncio...
Em que somos tudo não sendo nada...
Em que os extremos desta dimensão se tocam...
No limiar de uma nano-eternidade
De uma não-liberdade...
De um não-pensar... pensando tudo...
Nesse silêncio absurdo...
De estar ao mesmo tempo a falar e a calar...

Porque o silêncio.... tem voz... e sentir... próprios
Estridente e imanente... à tua alma..
É a vontade escondida...
Sob a carapaça alada...
Pode ser doce...
Pode ser frio...
Pode ser fruto da mais profunda cumplicidade...
Ou demonstrar que ali há dor a transformar os instantes...
A modificar quem somos ou a esconder uma verdade...
Pode ser expressivo... sábio...
Ou ignorante... e vazio...
Pode ser... confortável...
Pode ser constrangedor...
Pode ser felicidade...
Pode ser dor...
Pode ser...
Pode... ser...


Pode ser... e
E... será sempre diferente...
Cada silêncio... diferente do seu semelhante...
E absurdamente indefinível...
Sem um modelo de semblante...!

E...
E...o teu silêncio...
O teu silêncio... é eloquente.. e expressivo...
Conheço os teus silêncios...
E o que a sua voz calada... às vezes quer dizer...
Umas vezes canta...
Outras vezes grita...
Mas... o teu silêncio...
Esse que é só teu...
É lilás... é diferente... é mágico...

É apaixonante... quando é teu...!

Teu...
O teu silêncio...
Na analogia ao silêncio absurdo do silêncio...

(Muito mais há a dizer e a retratar, a reflectir, a pensar e a sentir sobre os silêncios... mas o meu silêncio... neste momento... silencia... tudo o resto... que dizendo... em silêncio... me faz calar o que digo... o que disse.. desde que a minha voz se calou... neste silêncio absurdo do silêncio... que conto sem contar...)


Pedro Campos