Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Filosofar-te

Filosofar-te...


Fecho os olhos
Sutenho a respiração
Olho para dentro de mim
Perscrutando o silêncio obtuso do coração
Que no calado da sua voz sincera
Teima em teimosamente
Dificultar-me essa busca pela razão!

A busca...
Essa busca pela razão que me faz sentir assim...
Perdido no instante, unido no momento
Fico distraído, quando penso em ti...

Fico louco, perdido, insano ou apenas distante...
A verdade é que a verdade do teu rosto
Me sacode o temor da noite
Afasta de mim o medo do escuro...
Ou o receio do vazio...
Trazendo-me o prazer de te contemplar...
O prazer de ser eu, aqui, ali, algures...
Esse doce, saboroso, terno e meigo prazer... de apenas te olhar...
.. De apenas te olhar... doce e ingénita... qual Deusa da eternidade...
... de apenas te ouvir... melodiosa... suave... eloquente...
.. apenas te sentir... quente... fria... macia... como uma pena de fénix renascida...
... tão perto... como parecem estar... os nossos sonhos...
Mas sempre... sempre...
Sempre... tão longe de mim...
Como costumam estar... as serras recortadas no horizonte montanhoso... ao longe...
Tão longe... quando me apercebo...
Da real distância entre nós...!

No palpitar do coração
Um ritmo acelerado
Marca o compasso da emoção
Define.. em linhas mestras...
O segredo pautado de uma canção...
O que sinto por ti...
O que sonho por ti...
O que acordo e desperto... por ti...
Sonho e canto... e danço e toco... o céu... e o lume e a chama da vida... e a própria vida...
Num leque multicolor de coloridas esperanças numa eternidade singela...
Ter-te aqui... ou apenas... amar-te a ti...!
Uma flor...
Um arco-íris atravessando o céu como uma ponte interestelar...
Transportando nuvens de algodão entre a terra do nunca...
E a terra do sempre...
Entre nós os dois...!
Entre os dois vectores filosóficos que abarcam todo o sentido das coisas...!

Mas...
No balanço entre graves e agudos...
Numa sonata de composição angustiada e cadência lenta...
Deparo comigo...
Longe do meu rumo original...
Deparo comigo...
A caminho de um caminho desconhecido...
Deparo comigo...
No cume de uma montanha...
Subindo paulatinamente na madrugada da altitude...
Perante a bruma saltitante de um nevoeiro denso que se adensa, me adensando... ali...
Envolvendo-me como um lençol espesso...
Como uma cortina da ilusão...!

Estou...
Encontro-me...
No cume de uma montanha...
E decerto... a caminho do abismo... a caminho da nadificação..

Ali.. no topo do mundo...
Unido com o tempo...
Com o vento no olhar...
As estrelas por detrás...
Nos carris de uma imaginação infinita...
Onde adormecem anjos, esvoaçam fantasmas e gritam gigantes...
Nessa terra de fantasia...
Onde repousam os meus pensamentos...
Os meus sonhos...
O meu amor por ti...
Crescente, patente... inventado aqui...
Como a lua no céu escuro e estrelado.. e sentido e deserto... e recto... e oblíquo.. incerto... e definido... e talvez eterno... talvez autêntico... talvez nosso... talvez...
... talvez ... de ninguém...!!

Esse céu..
Que tantas vezes me pareceu reflectir uma imagem de um mundo que me é estranho...
Com ideais que não entendo...
Com mãos que não se dão...
Laços que se não constroem... sem união.. sem corpo.. sem alma... num hino à solidão...
Com lógicas e paradigmas que se entrelaçam no ritual grotesco... e interesseiro... de ganhar uma corrida... de ganhar uma taça...
E esquecer tudo o que não possa trazer a vitória própria... a glória individual...
... o púlpito imortal entre nós... meros mortais...!

Um lutar sem princípios...
Uma corrida sem... concorrentes...
Um mundo... sem bom-senso...
Um contexto sem rumo...
Uma história sem linha condutora...
Uma peça... sem guião...
Um refrão sem canção...
Um tudo... sem um nada...
Ou talvez... um nada sem tudo...!
Mas...
Mas...
Mas.... talvez... certamente...
Ainda assim...
É esse o meu céu...
Esse céu... que também olhas...!
Esse céu... que me abre as portas dos teus olhos...
Com o brilho do sol...
Espelhado... em reflexo...
Espectro genial... com o brilho da íris de um olhar...
Na superfície ondulada...
Das ondas do teu mar...!

Desse mar em que navego... à deriva... na aventura de viver...
E meta-reflexivamente... inelutavelmente...
Saber-me vivo...
Saber-me Ser!
Não apenas porque sonho...
Ou por ser capaz de chorar e sorrir e correr e perder e ganhar e ceder... e ser eu próprio.. e esboçar-me como desenho em papel...
Oh...! Meu Deus...!
Tenho apenas duas dimensões...
O sentir e o pensar...
Oh...! Sou apenas um desenho... um rabisco... de horas entusiasmadas de algum poeta arquitecto... ou de algum pintor enlouquecido...!
Oh...! Amanhã...
Amanhã...! Talvez eu já não seja nada...
Porque ... posso sempre ser apagado...
Pela ondina sobrenatural da incoerência inestimável da longitude do ser Humano...!
Pela sua própria decadência...
Pela sua instância espontânea... de querer-se tornar no centro energético da vida...
Qual buraco negro... intenso... imenso...
Que vai sugando os restícios de beleza... de bondade... de vida genuína...!!
Amanhã... este homem... menino... criança... recém-nascido... feto... ovo... desejo... amor...
Retrocederá... ao ser apagado... no seu caminho através do tubo do tempo...
Pelo vórtice do infinito...
Sem que possa lutar contra isso...!

Aquilo que me restará....
Será o orgulho de ter acreditado em mim e nos outros...
Será o prazer de ter-te desejado... e amado... e sentido... como sonho!
Será a certeza... de que algum dia... voltarei...
Embebido na chuva doce do surrealismo perpétuo que inundará os corações dos pastores...
E dos seus animais...
Embebido... na natureza pura...
Eternamente... minha mãe...!
E este desenho...
Olvidado... para sempre...
Sobreviverá em ti...
Por ti...
Agora...
Quando a luz se apagar...
E os olhos se abrirem...
E eu deixar sair o ar que sustive dentro de mim...

Agora...
Quando... regressar desta viagem interior...
Durante a qual...
Teimosamente... teimei...
Em perscrutar este silêncio obtuso do meu coração...
Que... no calado da sua voz sincera...
Vislumbrei o segredo do segredo...
Decifrei o código encriptado... que omitia o ruído da mensagem...
Dessa mensagem que escondia... a tal razão...
Essa razão que me faz sentir assim..
Essa razão...
Que era tão simples de explicar...
Sem recorrer à metafísica nem à filosofia extenuante de mim em mim próprio
E que poderia explicitar... dizendo apenas...
Que te amo...
Penso eu...
Que te amo....
A ti...
E ao meu mundo...
Ao nosso mundo...
Ao meu céu nocturno... onde me adormecem...
As estrelas sorridentes... como tu...!
Deixando-me ainda acreditar...
Que amanhã tudo será melhor...
Que se quisermos... tudo podemos...
Amar...
Chorar...
Sorrir...
Voar...

Até sempre...
Porque o sempre... é a continuidade que prossegue dentro de nós...!
Porque sem nós...
O sempre.. desaparece...
Como nós... sem o sempre...!
Amo-te...
Filosofando-te...!
...
Sejas quem fores...
Porque certamente...
Sabes quem és...
Mesmo que eu não o saiba...
E isto seja apenas um delírio filosófico...
... Filosofar-te...! Aqui...!


Pedro Campos - Algures no instante breve da eternidade