Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Indagando...

Indagando



Pergunto-me...
Onde estava eu...
Quando me ouvi chamar por mim?

Interrogo-me...
Quem era eu..
Quando te olhei olhar para mim?

Descalço-me...
Já descobri os sapatos castanhos e enrugados...!
Estavam debaixo do colchão do silêncio
Junto ao baú onde guardo todos os meus medos
Bem fechados e atados...
Para não me devorarem ao anoitecer...
Quando estou desprotegido...!

Dispo-me...
Já reencontrei a nudez de um princípio de vida
Estava a meio caminho entre a felicidade e o desespero
Não trazia bússola, nem relógio, nem passado, não trazia nada...!!
Trazia somente no bolso a indagação
Com que me olhando...
Me pergunto: quem sou?
Onde estou...?
Se para onde vou... lá estarás tu... ou não.. a esperar por mim?
Se quando chegar... ou partir...
Alguém irá entender a minha solidão...!?
Alguém poderá incluir em enciclopédia... este pensar..
Este agir...
Este perguntar...
Será que tu... que me lês... entendes a minha emoção...?

Talvez sim... talvez não...
Porque... eu já não sei quem sou...
Porque... eu já não a entendo...
À solidão...
Indagando...
Perante os portões colossalmente abertos...
Desta alma em contemplação...!

Será...?


Será...


Será possível...
Amar alguém tão forte assim?
Ver na montanha, a luz...
E no vale, a imensidão...
O infinito que seduz...?

Será possível...
Aconteceres em ti... tão real assim?
Sentir nas mãos... o tesouro perfeito...
Escutar na voz... o mundo todo... por inteiro...
Experimentar na cor... os teus gestos secretos...
E deixar-me morrer aqui...
Pela saudade que sinto....?

Será possível...
O horizonte estelar
Estender-se até à terra do nunca e do sempre...
Esse éden oculto... escondido... nos teus dedos de firmamento...?

Será possível...
O impossível ganhar forma em ti...
E este poeta... sem o ser...
Deixar de ser ténue... impensável... invisível...
E tornar-se parte... de um mundo real...
De hoje...
Que és tu...?

Será possível...?
Eu estar aqui, agora, a escrever, a compor, a pensar, a sentir, a sonhar...
A enlouquecer.. a viver... a falar... a sair... a chegar... a viver..?

Possivelmente... eu existirei...
Num momento que será...!

O hoje mente
É só parte de uma história
Que amanhã alguém contará...!

Ainda não aconteci...
Sou um eco do amanhã...
Avistado.. ao fundo da estrada...

Um arco que arde
Em formas que se multiplicam
Entre os olhos da liberdade...
Que se vêem e pensam...
Num ir e vir...
De maré cheia...
.
Que se vê...
Da janela que tu hás-de abrir...
No amanhecer...
Quando acordares... deitada ao meu lado...
Sorrindo...
Gracejando...
Assim... delicadamente... falando..
Doce e deliciosamente... Apaixonante...!
.
E serei eu... o teu herói... o teu Amante...
Apaixonado por ti... intenso... febril... elouquecido...
Encontrado em ti...
Esperando-te a cada instante...
E o mundo longe...
O mundo perto...
Num sentido que extravasa os sentidos...
E se dilui...
Na íris aberta e colossal...
Do vento sem som...
Que vem eterno e te pergunta... assim...
- Será...?





Pedro Campos

Conversa com um Deus


Conversa com um Deus



Porquê?
Custa tanto assim o não?
Porquê?
Será a corrida uma ilusão?

Porquê?
Veio a sorte, veio a vida
Porquê?
Se a bagagem está vazia

Porquê?
Ó Deus que te esqueces de nós, esquecendo de ti
Porquê?
Ó Doutor, mestre catedrático, que te ocupas no teu tempo melodramático
De matemáticas e ciências exactas
E te olvidas exactamente
De dares atenção a ti próprio...
E nem sequer escreves nas actas
Em cada reunião com os teus anjos
Que há guerras, que há mortes, que há sangue, que há fome
E que há gente como tu
Que se perde a acreditar
Que existe gente como eu
Gente como eu
Que acaba sempre...
Assim... como tu...
Só e perpetuada... como ausência
Para sempre...!

Como podes existir se eu nunca existi?
Como podes acreditar em mim se eu nem por sombras acreditei em ti..?
Como podes esperar que eu caia.. e me levante sozinho... se tu nunca te levantaste...?
Como podes pedir-me que te oiça e te escute...
Se continuas a falar para dentro?
Como podes querer que eu siga os teus ensinamentos...
Se só aprendi contigo a ignorar quem me chama...?
Aqui...
Omnipresente...
Quem és tu? Deus... que te ocultas em mim...
Quem és tu?
Quem sou eu...?
Quem somos nós...?

Deuses de um mundo menor
De outra esfera do existir
Criámos Deus à nossa imagem
E dizemos que foste tu que nos criaste como tu...!

Talvez...
Estejamos certos
Quando dizemos...
Que és a nossa salvação...
E não menos certos
Quando supomos...
Quem sem nós tu deixariass de existir
Sem nós... és uma história que nunca foi escrita
Sem nós... tu serias não mais que uma desilusão...




Pedro Campos

Caravela dos Sonhos



Caravela dos Sonhos


Se eu pudesse dizimar o tempo
E oscultar o triunfo da solidão
Para procurar no baralho do feno
A flor real que te brota no coração

Se eu pudesse ter asas como um pássaro
E seguir viagem por horizontes que não vi
Talvez, levasse mil sonhos na bagagem
Talvez voltasse com todos por cumprir

Se eu fosse feito dos teus dedos
E a voz não tremesse quando falas
Talvez a noite acreditasse no sentido
Que o caminho tem junto às árvores

Se eu não sentisse, não chorasse e não me doesse
A queimadura da lava que se expele do vulcão dos meus medos
Talvez os olhos tivessem outra leveza
Que seria etérea nos ondulantes divagados
Do meu ser

Se eu não restasse de mim
E pelo prado verde eu não me acontecesse
Talvez ainda houvesse a esperança vã
Que num momento fortuito eu me perdesse

Se... eu durmo o vento
Numa loucura que antecede a alma
Acorda-me de noite o grito suspenso
Que a minha boca mantém calado

Se ... nada... é nada...
E eu... nada também sou...
Dissipo-me na espuma da onda...
E no areal quente...
No rosto vincado...
Também eu... me sinto ausente...
E disparo na onda da noite
Aquilo que nunca pude ser...

Talvez o brilho fosse demasiado forte
Talvez o negro fosse demasiado denso
Talvez os dedos não me puxassem com tanta firmeza...
Talvez eu estivesse somente ali... à espera desse nada...
Talvez as cores que o espectro de luz invade
Me dissessem que já não estava mais ali a verdade...
E a hora estava perto...
E o gesto inerte
Era o nulo... o vazio... o nada...
Que me corria nas veias e me respirava

E eu morri...
Ao som daquelas palavras...
Eu morri...
Enquanto a caravela de sonhos... me deixava...
Ali...
Náufrago do silêncio..
Inaudito.. ermita..
Sob o céu cinzento...!
.
.
.
.
Pedro Campos

Tu



Tu...


O teu sorriso é inexplicável
Terno e meigo o teu corpo
De devaneio deixa o meu
Que salta pelo tempo
Pelo vento à procura do sonho

O teu gesto é furacão
Que precipita toda a onda do mar
Dedos feitos de fogo que crescem
Na noite e me fazem eterno
Quando à noite..
Te fixo, a contemplar
Sem saberes
Fascinando-me
Com a beleza mais profunda
Que existe...
... a beleza do teu olhar...



Pedro Campos

Acordo-me

Acordo-me


Acordo-me
Dissipo-me nú na noite
Sou alma despida
Espectro do sonho
Viagem astral
Experimentador de mundos

Adormeço-me
Já me vesti
Com o lençol cândido, quente
E a madrugada veio longe
Longe demais para prever
Longe demais para provar
Perto demais para doer
Fundo demais para evitar
O sopro surdo da história que se contou
O eco louco do grito que se gritou...

Aconteci-me...
Algures... dentro...
Do teu silêncio...!


Pedro Campos

Pensei

Pensei



Pensei que a noite
Seria noutro dia qualquer
Um amanhã que viria ontem
Entre as almofadas do amanhecer

Julguei que a sorte
Determinada e restrita a alguns
Não me tocasse de longe como tocou
E ficassem as minhas mãos vazias...e os meus ouvidos surdos...
De uma alma sem som...

Acreditei que o combate pacífico pela liberdade
Seria sempre encorajado pelos Homens
Mas enganei-me ao considerar real essa verdade
Afinal os Homens são cobardes
E não sabem que amar não tem alinhamento
Não tem manual de instruções...
Nem moratórias de tempo..
Que definam quem somos...

E mesmo que outros pensem em definir...
Nada mais errado poderiam fazer
O amor é como uma cigarra que canta num prado verde
Cada cigarra tem o seu som próprio...
Como cada amor tem a sua música única.... inconfundível..
E não pensem que por tentar calar a cigarra... ela deixará de cantar...!
Sei... que cantará até morrer...
Como esta alma que te ama...
Como esta voz que te chama...
Até ao tudo... do tudo...
Expressará sem temor...
Este sentir, este remoinho, esta revolução...
Este querer-te tanto, este fogo que arde em fulgor e calor...
Este amor...
Amor.. por ti...
Nunca calará...
Só quando findar...
O Eu.. que habita aqui.

Pedro Campos

Navegar


Navegar


Fecho o livro do tempo
E o tempo já passou
Ainda agora tinha desfolhado algumas folhas velhas
Com histórias que o teu olhar presenciou

Talvez... já não haja vento
Talvez... hoje a fragata não saia para alto mar
Talvez... o meu leme esteja danificado
Pois perdi as coordenadas...
Perdi o rasto do teu navegar...

Ontem... para encontrar o destino
Limitava-me a olhar pelo monóculo de vidro baço e riscado
Deixava que a maré... me levasse onde tinha que ir...
E ficava de olho aberto às ameaças dos predadores dos oceanos...
Monstros, Piratas, Homens não Humanos...
Tudo aquilo que existe hoje...
Em terra e mar, em céu e ar...
Em todo o tempo, de fogo tamanho...!

Hoje... preciso de encontrar o destino contigo...
Procuro em cada ruína do passado
A melhor forma de encontrar o templo
Onde possa falar a Deus
Onde possa entendê-lo...
E libertar-me deste "não poder"
E amar-te... dar gesto ao sentir...
Sem que ninguém possa destruir...
Essa coisa bonita... sincera e profunda...
Que é amar-te... assim...

Agora... sei que a madeira do casco... está quase quebrada
E as ondas vão-se tornando cada vez mais fortes
Agora... sei que se aproxima o fulcro da viagem...
Aquele momento basilar
Em que assenta tudo aquilo que virá...
E sem saber nada de futuro... nem conjunturar ou prever o que há-de vir...
Sei... que levarei esta fragata onde tiver de ir
E destruirei amarras de preconceito
Caminharei por entre lâminas de egoísmo e inveja
Delapidarei a pedra fria da ignorância, da cegueira...
E seguirei ao leme... toda a vida... que me resta...
Por ti...
Por nós...
Sem cessar...
Até ao último suspiro... deste respirar...
Eloquente... de existir..
Dedicado... a te amar...


Pedro Campos

Nada

Nada...


Sou nada...
Sou nada de mim...
Um templo deserto
Abandonado ao relento
Na madrugada do tempo
Em que o tempo devorou a força
Que habitava imensa aqui...

Eu sou.. nada...
Sou o nada que fica quando o tornado nos atinge...
O nada que resta quando a solidão nos beija...
O nada que sobra...quando partes...
O nada que grita... quando choras...
O nada que chora... quando não gritando... sofres...
O nada... vazio... vácuo... ausente...
O nada... sou eu...
Nítido nulo permanente...

O nada.. sou eu...
Este espírito velho
Enclausurado num corpo novo
Prisioneiro das condições de outros
Lutando por transformar-nos em sonhadores...
Para que amar... e viver... passem a ser sinónimos...
De coisas dimensionalmente diferentes...

E assim... adormeço...
Num nada...
Que perdura...
Na tua ausência...
Na própria ausência de mim...
Eu sou nada...!

Nada.


Pedro Campos