Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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O Relevo do Pensamento



Abrir a minha alma
Deixar que as palavras tomem o seu lugar
E junto da rocha oceânica
Sentir o nosso mar falar

Há talvez
Uma forma diferente de crescer
Olhos feitos sonhos
Braços feitos vento
E tempos inconstantes
Na reverberância do não ser

Há talvez escondida
Debaixo da pele
Uma raiva secreta de existir
Uma revolta constante de mudar
De acreditar sem ser crente
De duvidar sem estar aqui
E um grito... por dar...
Um gesto por... haver...
Uma dor por questionar...
Um rosto ... por acontecer...

Há talvez escondido
No trémulo gosto dos temperos
Sabores que não sabemos
Palavras que não dizemos
Instantes que não vivemos
E mundos... que abandonamos...
Quando essa dor... essa raiva... esse desespero...
Nos fazem... mais....
Mais...
Eloquentemente mais....cansados...
Incrivelmente... menos... vivos...
E mais... mais... apaixonados... por um céu estrelado... no extenso areal...
E os pinheiros ao alto...
Os sussurros dançando no ar...
Segredos feitos de cores
E odores.. odes de amantes...
Divagantes, colossais...
Estrelas de cetim...
E pétalas descendentes... na harmonia das pétalas que murmuram
Na antecâmara... da verdade...
O chão foge-me...
O céu implode...
E o instante não tem preço...
Tu entras...
Tu sais...
Eu expludo em nós...
E os nós desfazem-se...aqui...!

Sem nós... a vida aparta-se...
E a tela viva de relevos indeterminados...ausenta-se..
E os seios da Deusa da vida.. circulares...Lua cheia...
E as paredes brancas... e as molduras suaves... da noite calada...
Desmaiam... quebram-se os sinos da torre de vidro...
E nos olhos dos Homens...
Uma falta de brilho sem expressão...
Olhos que olham sem olhar
E olhares que olham... sem lugar...
Olhos que morrem... na retina da solidão
Brilhos que escorrem.... e não voltam...
Aos brilhos que tinham... aos olhos que eram...
Os olhos de quem sonhou...a liberdade...!

E o avião vibra, o motor do carro precipita a velocidade...
O farol intenso... clama de infinito... no horizonte...
E a maquinaria do coração... deslumbra de vapor...
A loucura tumultuosa...
Com que os braços pouco mecânicos... estremecem...
E as cartas... de todos os silêncios...
Espelham num espectro de coisa vazia
A sorte... o azar... o caos na sua face definida...
E o débito de presente... germina já... nos bancos da escola...
Somos dúvidas, dívidas...
Somos o que não ficou...
Dos seres que não somos...
Espíritos empenhados em praça pública...
Com os pescoços presos... e os corpos suspensos...
Num Pelourinho... de justiças injustas...
De uma montanha... que recuou...
Ao longo.. da planície...!

Criámos Deus... para que ele nos comandasse... nos criasse...
Mas esquecemo-nos que criando... somos nós o Deus de Deus...
Somos nós quem deverá responder... com milagres
A um Deus... que nos deverá ofertar as suas preces e rezas...
E rituais, e dogmas e.. fés irrelevantes..

De facto...
Abri a minha alma
Deixei que as palavras tomassem o seu lugar
E junto da pedra angular
Senti o meu mar falar

Há talvez
Uma forma colorida de adormecer
Nuvens feitas ondas
Pássaros imóveis no voar
Amores secretos, ocultos, repletos de cumplicidade...
E vultos inundados... de recordações e de fado...
Entes inquietos... tão quietos... estranhos... fundos...
Que me falam...
E esses olhos... indizíveis... imensuráveis...
Leves, loucos... unguento distante... momento...
Estranhamente... estranho o encanto...
E o mármore da dor regressa...
Às grutas invisíveis que não conheço...
De uma existência...
De um espelho de água...
Onde me embebedo de ontens e de amanhãs... de sempres... e de nuncas...
Que serão... flor, floresta, calor, chuva, mistério, tabú...
Amarra-me o tempo ao tempo
E o Éden... esvai-se... pelas gotas cristalinas
Do teu beijo...!

E morro..
A baía de declives já aconteceu
A música tonificava os electrões da atmosfera
E o fim chegou...
E eu morri...
Talvez.. aqui...
Ou em todo o lugar...
Sem nunca morrer...
Porque ficou parte da paisagem.. do relevo...
O meu pensamento...

Ficou...
De relevo de mim...
O Relevo do Pensamento...
O Princípio...
... e o Fim...!

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