Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Desce

Desce sobre mim

Rompe-me a noite

E nega-me o vento

Que te castiga no silêncio


O que sou eu?

Esta pedra cansada e neutra

E mudada


O que sou eu?

Morri!

Já não sou nada!


Pedro Campos.

Ontem... ainda há...!



Ontem
Olhava o relógio
E via nos ponteiros uma intenção diferente
Uma força de rebeldia
Que puxava pelas cordas do engenho
E expressava em palavras surdas
Os instantes cessantes
Na maré do cais

Ontem
Não acertava o relógio
Todo o tempo tinha o seu tempo certo
E não havia instantes esquecidos
Lúgubres momentos ecoantes no pensamento
Como obcessivos dilemas morais
Flutuando em lagos de lamúrias…
Na superfície da água…

Hoje
Relógios sem energia
Acerto e reacerto constantemente os momentos que passam
Espero revê-los, passados no amanhã
Decerto a fantasia irá chamar por mim
Ao amanhecer

Decerto também a noite será como uma ruína de um castelo de uma história de príncipes e princesas
Decerto… a rua toda perca o sentido de caminho
Porque… decerto o destino já se desfigurou
Em algum areal de uma praia qualquer
Num qualquer dia de húmido nevoeiro
Em qualquer espelho derretido… uma saudade diluída nas lágrimas alheias de uma doutrina espectral inelutável
Em que tu… escutas… calada…
O som do silêncio…

Mas…
Tic… tac… tic… tac… tic… tac….
O relógio afinal continua a tiquetaquear… e o tempo não parou…!
Ainda há esperança para que o fim não seja hoje… agora… já…
Ainda há talvez uma fórmula nova à espera de ser descoberta…
Ainda há…
Ainda há…
Frieza…
Calor…
Ainda há… também… madrugada… e sol e dia… e noite e sal nos pratos feitos de liberdade prisioneira de vãos espaços… unidos na ausência…
E há… solidão a espantar a alma… e tristeza a fechar os olhos e a estigmatizar as mentes…
E medos… há medos que fazem surdos os ouvidos e cegos os olhos… e gestos que mudam tudo…. no momento certo…

Ainda há… saudade…
Ainda há… amor… também…
Esperança… afecto… ternura… feridas abertas…
Facas afiadas e revolveres feitos de letras e palavras… em que as balas são lançadas nas madrugadas em que os sonhos não condizem connosco…

E há loucura….
Ainda há… lucidez…
Lucidez… em cada vez que vejo a minha loucura… a minha febre… o meu… instante…
E batem… bombas…
Espelhos de vidros impossíveis… estalam…
Rotas cruzam-se…
Testemunhas rendem-se à evidência de não terem testemunhado nada…
E mentiras penetram fundo nos lençóis plasmáticos da alma destruída…
E ainda… há… imensidão…
E a cor do asfalto não é mais da mesma cor e os trajectos são feitos de mármore e o chá está aqui… a arrefecer… e a garganta não me deixa falar…
Estou numa noite em que não sou eu…
- Então… meu velho amigo? Como estás?
- Cá estou…! Sou o mesmo nos mesmos tecidos e nas mesmas vitrines de abstração.
E afinal… depois de nesta noite…
Ter havido tanta noite tão cheia de noite…
Cesso-me aqui…
E adormeço concentrando atenções no ritmo do passar dos segundos…
Fecho os olhos exaustos e saio…
Afinal…
Ainda há um ser humano aqui.

Pedro Campos.

Pensamento


Porque pensas?
Porque é que tentas sempre entender o que escreves, o que fazes, o que sentes?

Para quê teorizar  o sonho e a imaginação,
Se tudo o que somos é imediato e real
Tudo o mais é desvanecer a glória do essencial..

Está ali uma árvore de folhas verdes e perfumadas
E é a árvore... só isso... mais nada...
Que me faz sentir feliz...
Para quê atirar areia ao ar...
Para tapar os olhos e mudar
A forma como vemos a forma das coisas
Se são os olhos que vêem e nada mais...
É o próprio olhar que nos diz o que olhar...

Não é o pensar sobre o pensamento de ser árvore
Ou remota hipótese de tudo o que resulta da interpretação confusa que os estudiosos sempre fizeram
Para quê pensar, se basta sentir?
Para quê tentar confundir uma visão real e única
Se só isso é o máximo a que podemos alcançar?

Para quê imaginar o que virá a seguir?
Para quê criar ideias do que farás amanhã?
Para quê interrogar-me assim aqui?
Se nem interrogando sobre o que faço
Me abre as portas de um mundo que ao pensar já desfaço...
E num instante deixo de ser feliz...
Porque abandonei a verdade
Só a verdade... que os sentidos captam... 
No instante genuíno de seres tu
De seres aqui... imediatamente o que és
E não o que serias daqui a um milésimo de segundo
Do pensado o não pensado...
Do futuro... o livro escancarado
Dedos morrendo...  e cabelos caindo...
Sangrando da substância de si...
Desvanecida e dissipada...
Separada do seu momento único...
Aquele instante... irrepetível...
De um beijo
Os lábios humedecidos
A suavidade fresca e a pele molhada...
De uma euforia sem tamanho...!

O que seria de cada um de nós
Sem a brevidade de um momento?

Fechem a cadeado o pensamento!
Que pensar demasiado causa o envelhecimento
E a pouco e pouco um divórcio eterno
Entre o ser e o sentir...
Entre o dentro e o fora...!

Não pensem...!
Apenas sintam...!
A ave colorida a voar no céu azul...
E a planície verdejante e luminosa...
Que bom que é acordar assim...
Viver assim...
No limiar de ousar olhar apenas...
Apenas estar...
Não teorizar...
Respirar fundo...
Sem complicar...!

É talvez o último segundo


Este é talvez o último segundo
De respirar este verso nú
Sem forma, sem cor, sem triunfo
É talvez o último tempo do mundo...

E todos, na multiplicidade de mim...
Manifestam-se em endofasia constante
Batem palmas, assobiam, gritam, rufam
Num ensurdecedor adormecer

Querem entrar...!
Querem sair...!
Querem todos mostrar-se simultaneamente neste fim...
Sobem escadas, descem avenidas...
Com as cortinas rasgadas
Vêem que já não há mais maravilhas! - A esperança terminou.

E no céu agita-se um falcão negro
Negro como o sangue do medo
Frio como a pedra mais cinzenta e dura
Nulo... como o vazio mais perpétuo...!

Daqui a nada serei menos que esse vácuo...!

E amanhã acordarás ignorando
Que ontem foi o dia em que parti.

Dedos no ar...


Dedos no ar
Ponham os dedos no ar!
Quando quiserem pedir ao sol que vos ilumine...
Quando quiserem soltar as ondas do vazio...
Ou escutar a melodia de um olhar...
Façam o favor...
De pôr os dedos no ar...!

Dedilhando versos...
Pedia ao vento que soprasse sobre mim...
E me afastasse o desespero...
Este que o odor a saudade me provoca aqui...

Sou um prédio inteiro
Com varandas abertas para o céu
Tenho caves escondidas
E quartos ocultos
Paredes secretas
Que segredam os medos e os sustos..
E morro quando o bater de uma asa
Sacode o silêncio frio do momento

Dói a cor
Dói o gesto
Sinto falta de nós os dois
E não estou Eu aqui

Onde estou?
Então onde estou?
Alguém me ouve...? Alguém me responde...!?
Ah... já me esquecia de pôr o dedo no ar...
O dedo no ar...
Para Deus me ouvir.. dizer...
Reflectir.. duvidar, perguntar...
Onde está Deus...!?

Amanhã...


Menina que choras
Encostada a essa pedra vazia
Despes a solidão da noite escura
Que o mundo é um altar para um Deus cruel e negligente
Ignorante do instante em que o Homem sente

Menina que cais
Cansada nessa cama sem rede
És sozinha nos encantos que o pensar te trouxe
Uma fadiga de ser e estar
Numa terra de muralhas altas demais para o sorriso

Dorme, nessa cama sem dossel
Tem sonhos de esperança
Que amanhã o tempo te dará razão

Amanhã será tempo do instante
Do sentir não mutilado
Será tempo de te envolveres com o infinito
Tempo de conheceres quem se esconde
Tempo de veres o que olhaste tantas vezes oculto pela cortina da estupidez
Amanhã será o tempo de acordares
Amanhã... será o dia do teu nascimento...
E quando abrires os olhos...
Por entre a luz e a treva...
Serás feliz...
Amanhã... menina... será um lindo dia...
Amanhã...
És livre..!


Ave celeste...


Ave celeste
Que deslizas pelo céu
És feita de ondas
De um mar onde não há breu

Ave colorida
Que os meus sonhos te inventaram
Tens penas roliças
Onde rebolam as conchas do oceano

Ave desperta, minha amiga de aventuras
Quando fecho os olhos tu me embalas
Pelo túnel aberto do infinito além do monte

Ave pintura, candeeiro nas noites escuras
És a folha onde os pensamentos flutuam
Quando iço as velas para o futuro
Fecho os olhos ao destino...

Ironia

Deleito-me a pensar
Nas palavras escritas que crescem
Como se nelas existisse uma fonte
Onde o sublime e o impossível amanhecem

Um traço na folha
Uma folha sem traço
É um dilema perpétuo
Saber se o poema é um beijo... ou um abraço..

O trilho por decidir
E o vazio por preencher
Velas no rebordo da vida
E um grito no decano da solidão
Presidindo à assembleia remota
Onde os Deuses discutem as estratégias
Para o extermínio da emoção!

Nas horas silenciosas
Ocultas o medo
As mãos tremem-te e os punhos vacilam
E do outro lado da cortina encontramos o nevoeiro
Que a formalidade do mundo nos contamina...!

Ao longo dos dias
As noites vão mudando as vidas
E os breves longos instantes de eufemismo
São apenas sanguíneas temperanças
Loucuras ténues, devassas, que a madrugada te sussurrou...

Ao fim de um ano...
Acordas sonâmbulo
E o dia não tem mais dia
Que a noite é feita de lume apagado
Censurado pela ventania

É que a noite não é mais noite...
E a vida não é mais vida...
És tu e só tu... dentro de uma lagoa vazia
Onde as algas te cegaram o sorriso...
E te embriagaram de ilusão...

É que...
Quando abrires os olhos entenderás
O que as máquinas do mundo te fizeram
Mercantilizaram-te o coração
Montaram as suas estruturas frias de aço, ferro e pedra
E num mercado ao ar livre, feira popular da escuridão
Os Homens resignaram-se a mentir
Em vez de olhar e ouvir
O ritmo de cada sensação...

E sem saberes...
Adormeceste pensando que sabes tudo
Porque alienado permaneces
Cego, surdo e mudo...

A vida passou... os Homens morreram...
E nem as lágrimas nos registaram a saudade...!

Nada fica depois da partida...
Nem palácios, nem contas ricas.. nem os diamantes à volta do pescoço...
Nem a carne morna... luzidia... onde dançam os diamantes...
Nem anéis... nem os ossos...
Tudo se esvai...
Como poeira num vendaval...
E anda um mundo inteiro subjugado a impérios imensos
Que mais não são do que castelos de areia
Que sucumbirão
Ao subir da maré...!

Por ironia...
O Homem... tão obcecado pelo realismo... pelos factos... e provas...
É presa de si próprio...
Neste horizonte em que realidade é feita de incongruentes falsidades
Salpicada aqui e ali...
Com nano-verdades...

É esse o fado
Adormecer.. antes de despertar...
Deleitamo-nos a pensar...
Nestas palavras escritas que se disseram
Como se nelas existisse uma fonte
Onde o sublime e o impossível aconteceram...

.. para sempre...
nunca...
.. no extenuante excesso...
.. desta ironia...!

Não sei



Não sei que dor é esta
Que me corta a chama
E me dilui o verso...

Não sei que... palavras caem..
Entre os sonhos do meu sorriso
E o amanhã...

Não sei... porquê o sentir cansado!
Algures nas costas da solidão transporto
Um grito ao alcance do impossível...
.
Não sei que sensação me percorre
Se é de pedra fria a febre queimada me feria
Se é de ouro fundido o arame farpado
Que delimita os lugares sem sítio..

Não sei..
Se é de mim que tenho dor
Se é do sonho a saudade...
Se é do fado de ser poeta
Sempre no limiar da lucidez e da loucura
Sempre na fronteira ténue
Entre o doce encanto...
E a profunda melancolia...

O Gira-discos...


O gira-discos está quebrado!
Vês o disco a girar?
Parece um som psicadélico
Com um vazio no centro desequilibrado
Oscilando como o candelabro a deslizar
Pelo vento que sussurrando
Não sossega de chorar...

Estou...
À espera que a solidão dos nuncas
Amanheça à espera do futuro que fui
Nos sonhos dos que me amaram sem condição
Tempo ante tempo
Dedos abraçando mãos
No silêncio
No teu silêncio... de me escutares...assim...
De me escutares... ali...
Estes meus pensamentos...
Numa decifrável ilusão..

Estou... doente!
Dolente do meu pensar que morreu
A tentar compreender o infinito
Que há no caos das coisas finitas
Do universo que cada um traz.. colossal...
Dentro da sua mão...

Ao pensar compliquei o simples
Ao amar cristalizei o pensar
E feri olhos no caminho
Sem saber onde... para onde olhar

Transformei a inocência em armadilha
E os passos suaves e esvoaçantes.. em opressão...
Por me embrenhar nas silvas da vida...
Que ficam além, na estrada da confusão...

E enquanto me pensava livre
Não vi as correntes que me prendiam
Me agrilhoavam às celas de memórias escondidas
No baú dos dias em que todos estavam acordados comigo...
Lado a lado como num sonho de criança...
Uma festa em casa da minha avó...
E os amigos, os familiares, os primos, os tios, o meu avô...
Todos respirando e falando... tão bem.. pareciam vivos...

Hoje... a maquinaria está suspensa...
A agulha e o braço da canção já cessaram de movimentos
E o gira-discos.. está mesmo partido... não há dúvidas...!

E na companhia dos discos riscados
Já só ficam os dedos amontoados
Com as contas feitas e os projectos abandonados
E as lágrimas fugidias...
Paralelas a meia dúzia de poesias..
Que jazem... no frio da sala...
Ali... na mesma mesa solitária
Onde se acumula o pó em fatias
E fogachos de imagens retratadas
Do tempo em que nunca eu pensara na vida
Do tempo... em que o tempo me não doía
Porque conhecer... era desafiante..
E a dor... uma ideia ausente...
Colega de quarto da utopia...
Escutando...
Num gira-discos inteiro...
Música inteira...
No tempo em que o sorriso...era inteiro...
E ninguém chorava por olhar as fotografias.