Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Sou eu... assim...


Ergue-se num instante
Uma ponte ao fundo do corpo
Para destinos de outras margens
Talvez paisagens de sonhos crescentes
Despidos na humildade do vazio
Sou eu...
Sou eu... assim...

Um precipício inaudível para o invisível
Um declive aberto para o amanhã
Uma estátua moldável de pedra fria
Um rosto queimado, aconchegado
No secreto recanto do teu peito
Sou eu... nunca...
Sou eu... assim...!

Inerte a folha timbrada da solidão
De te escrever, doce ilusão
Uma carta repleta de notícias feitas de coisa nenhuma
Alpinistas descendo das almofadas
E as penas de aves sem asas
Que silvam no beiral da janela do teu quarto
Chamando por nós
Com um gosto amargo e doce
Tudo...tudo...
Tudo outra vez....

E no silêncio adormeço...
Para o sempre...
Adormeço...
Ao som do acórdeão....
Que chora... que grita...
Na esquina da vida....
E eu moro no tempo...
Que o tempo não espera por mim...
Sou eu... fora de tempo...
Sou eu... um presente futuro que ao passar me angústia
Aqui... na varanda do mar...
Rumo aos castelos...
Que a nossa história...
É longa demais para estes dois dias de vida...

A vida não cabe no compasso da eternidade...
E o poço abre-se ao relento...
E fujo... para o longe...
Aqui...
Algures...

Em todo o lado...
Estou eu... vazio...
Sou eu... assim.... o círculo infinito do nada
Eu... assim...
A esfera aglomerada de noites e dias
Que morre ao entardecer do respirar...
Sou eu...
Eu...
Sou eu... nulamente...
Sou eu... assim...

Tempo

Tempo


O tempo viaja por nós como um grito
Um grito que se expande pelo infinito
Um grito que não encontra fronteiras de destino
Um grito que morre..
No momento em que entendemos
As cores indefiníveis do caminho

O tempo embarca no cais da incerteza
E evade-se da doutrina e da fachada
Debate-se perante a conquista do instante
Equaciona a partida, dispersa a chegada
E faz de quem somos, novos, velhos, outros..
...Que não são nada...
Além de tudo o que a aurora lhes prometia
Além do vácuo que é estar aqui
Sem poder olhar a janela escancarada!

Deste lado



Uma mão estendida no espaço
Um vortex de cores
E um tendão de gestos
Conjuntos, dispersos
No vociferar do teu silêncio agudo
Acordado, deitado em mim...

Espero aqui...
O teu abraço quente
E a ternura doce
Esse halo de força maior e esplendor
Aqui... dentro deste lado
Onde impera o amor

Espero aqui...
A ardência incandescente
De centenas de perguntas sem resposta
E mil e uma farpas despertando a tua atenção
E o medo...
De que a face que me olhou...
Não olhe mais...
Com o mesmo brilho que encontrei...
Essa luz que me encontrou...
Deste lado...
Onde impera o que ficou...
Do areal de fogo...
Que o mar inundou..!

Onde estou...?

Onde estou?...


Na mesa o lápis perdido
E a borracha esconde-se perto da tua mão
E há um areal extenso
Onde adormeces tranquila
E um balão de ar quente
Que levita sobre o chão
De onde vês a tua vida toda
Compilada num instante...!

E saboreias o doce amargo sabor
De rituais de encantamento e poesia
Que ali... frente à porta escancarada do vazio
Eu... penetro... no intenso universo
Do Inverno que acontece...

Um sofá antigo
As nuvens cinzentas...
O ar húmido...
Um lírio lilás
As flores que um dia colhi... para ti...
Fossilizadas nas lembranças do amanhã...
E...

E... as profundas palavras
Colossais momentos
Indizíveis na sua nudez mais profunda...
Estilizadas numa tela a rubi
Grito surdo... explosão calada
É o verso de uma morte anunciada
Que crepita no ilusionismo
De afinal não estarmos aqui...

Onde estás...?
Onde estou...?
Serás tu... o semi-arco aberto de um arco-íris proibido...?
Serás tu... o oceano mareante... navegante... o absinto incerto, invisível no imediato segundo posterior ao sonho...?
Serás tu... aquela ferida, lacinante... que dói... cada vez... que choras...?
Serei eu... o inexistente...?
Onde estou...? Onde estou....??
Será que estou....?
Será que eu sou alguma coisa...?
Será que existo....?

Hoje... estaria capaz....
De olhando tudo aqui... e tudo ali...
Dizer que não me vejo... nem localizo
Como se num instante fosse miragem
A miragem de mim próprio em si
E no instante seguinte...
Nunca tivesse existido...

Talvez... nunca tenha realmente existido...
Talvez... sim...
Talvez... não...
Talvez... me pergunte simplesmente....
Num questionamento suave e puro...
Ondulante e divagante...
- Onde estou...?

No chão...



Diluí o verso eloquente da ternura
E nas mãos ficaram as gotas de tinta
As gotas de água, as lágrimas que sobraram
Do saco de lágrimas que chorei
E me choraram...

Dissipei as nuvens tempestuosas em surdina
E as árvores agitaram densos ramos na neblina
E nos dedos, e nas unhas, e no corpo todo...
Adormeceram as fagulhas de um fogo ardente que cessou
Além do sonho...

Às vezes num instante de reflexão
Pergunto-me, indago as minhas dúvidas ao infinito
Será que somos nós que choramos
Que carpimos dolentemente a dor sentida em vão
Ou seremos somente, apenas nós
As lágrimas choradas... que jazem como lagos... no chão...?

O Eu ninguém



O vento ouve por mim
Aquilo que a noite fala
Aquilo que a noite diz

O vento... estremece aqui
Quando a lágrima cai
E o futuro nunca está
Onde está o sentir

Leva-me...
Leva-me para lá das colinas de neve leve

Leva-me...
Leva-me para lá do nível alegre e breve da cintilância
E aí... talvez.. a fragrância... talvez o corpo... talvez.. o tempo...
Sejam outros...
E Eu seja... aí.. talvez... um outro Eu...
Um outro estar... um outro sentir... um outro amar.. um outro correr...
E o vento na face... e a face no riso... tocando-me e agitando-me...
Antes de partir...
E Eu seja...
E Eu fosse...
Talvez...aí... o Eu ninguém
Que dorme e desperta
No amanhã...agora!

O Relevo do Pensamento



Abrir a minha alma
Deixar que as palavras tomem o seu lugar
E junto da rocha oceânica
Sentir o nosso mar falar

Há talvez
Uma forma diferente de crescer
Olhos feitos sonhos
Braços feitos vento
E tempos inconstantes
Na reverberância do não ser

Há talvez escondida
Debaixo da pele
Uma raiva secreta de existir
Uma revolta constante de mudar
De acreditar sem ser crente
De duvidar sem estar aqui
E um grito... por dar...
Um gesto por... haver...
Uma dor por questionar...
Um rosto ... por acontecer...

Há talvez escondido
No trémulo gosto dos temperos
Sabores que não sabemos
Palavras que não dizemos
Instantes que não vivemos
E mundos... que abandonamos...
Quando essa dor... essa raiva... esse desespero...
Nos fazem... mais....
Mais...
Eloquentemente mais....cansados...
Incrivelmente... menos... vivos...
E mais... mais... apaixonados... por um céu estrelado... no extenso areal...
E os pinheiros ao alto...
Os sussurros dançando no ar...
Segredos feitos de cores
E odores.. odes de amantes...
Divagantes, colossais...
Estrelas de cetim...
E pétalas descendentes... na harmonia das pétalas que murmuram
Na antecâmara... da verdade...
O chão foge-me...
O céu implode...
E o instante não tem preço...
Tu entras...
Tu sais...
Eu expludo em nós...
E os nós desfazem-se...aqui...!

Sem nós... a vida aparta-se...
E a tela viva de relevos indeterminados...ausenta-se..
E os seios da Deusa da vida.. circulares...Lua cheia...
E as paredes brancas... e as molduras suaves... da noite calada...
Desmaiam... quebram-se os sinos da torre de vidro...
E nos olhos dos Homens...
Uma falta de brilho sem expressão...
Olhos que olham sem olhar
E olhares que olham... sem lugar...
Olhos que morrem... na retina da solidão
Brilhos que escorrem.... e não voltam...
Aos brilhos que tinham... aos olhos que eram...
Os olhos de quem sonhou...a liberdade...!

E o avião vibra, o motor do carro precipita a velocidade...
O farol intenso... clama de infinito... no horizonte...
E a maquinaria do coração... deslumbra de vapor...
A loucura tumultuosa...
Com que os braços pouco mecânicos... estremecem...
E as cartas... de todos os silêncios...
Espelham num espectro de coisa vazia
A sorte... o azar... o caos na sua face definida...
E o débito de presente... germina já... nos bancos da escola...
Somos dúvidas, dívidas...
Somos o que não ficou...
Dos seres que não somos...
Espíritos empenhados em praça pública...
Com os pescoços presos... e os corpos suspensos...
Num Pelourinho... de justiças injustas...
De uma montanha... que recuou...
Ao longo.. da planície...!

Criámos Deus... para que ele nos comandasse... nos criasse...
Mas esquecemo-nos que criando... somos nós o Deus de Deus...
Somos nós quem deverá responder... com milagres
A um Deus... que nos deverá ofertar as suas preces e rezas...
E rituais, e dogmas e.. fés irrelevantes..

De facto...
Abri a minha alma
Deixei que as palavras tomassem o seu lugar
E junto da pedra angular
Senti o meu mar falar

Há talvez
Uma forma colorida de adormecer
Nuvens feitas ondas
Pássaros imóveis no voar
Amores secretos, ocultos, repletos de cumplicidade...
E vultos inundados... de recordações e de fado...
Entes inquietos... tão quietos... estranhos... fundos...
Que me falam...
E esses olhos... indizíveis... imensuráveis...
Leves, loucos... unguento distante... momento...
Estranhamente... estranho o encanto...
E o mármore da dor regressa...
Às grutas invisíveis que não conheço...
De uma existência...
De um espelho de água...
Onde me embebedo de ontens e de amanhãs... de sempres... e de nuncas...
Que serão... flor, floresta, calor, chuva, mistério, tabú...
Amarra-me o tempo ao tempo
E o Éden... esvai-se... pelas gotas cristalinas
Do teu beijo...!

E morro..
A baía de declives já aconteceu
A música tonificava os electrões da atmosfera
E o fim chegou...
E eu morri...
Talvez.. aqui...
Ou em todo o lugar...
Sem nunca morrer...
Porque ficou parte da paisagem.. do relevo...
O meu pensamento...

Ficou...
De relevo de mim...
O Relevo do Pensamento...
O Princípio...
... e o Fim...!

Sou um pássaro



Sabes,
Sou um pássaro...!

Só hoje descobri
Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra
Quando esticava os braços que eram asas à sombra
Olhei de relance para um espelho fixo
No outro lado da rua
E vi um corpo de pássaro...
Uma memória de pássaro...
Um levitar... de pássaro
Que não se escondia... nem calava...
Vi uma alma de pássaro...
Que não fugia nem se camuflava..
No denso arvoredo que ainda haveria de existir
Junto ao lago sagrado do artista genuíno...
Que compõe melodias feitas de si próprio
E se transforma... em breves instantes...
Em instantes de si mesmo...
Nos pedaços da obra que inventa...
Da escultura que molda...
Do poema que escreve
É ele a sua métrica... a sua regra... a sua forma... o seu sentido...
De sonhador...
De apaixonado...
De amante...
- E crepita... luz...!
Crepita...! Cintila firmamento suave...! Eu espero por ti... pela tua voz...!
Espero... pelo teu sabor sumptuoso... febril... quente...
Pelo teu silvo ardente...
Essa melodia divinamente harmoniosa
Que estipula... todos os limites do céu...
Aqui...
Ali...
No infinito...
Por dentro do vácuo ermo e sorridente
Desse lampejo de liberdade... que é voar...
Assim...
Com as asas... abanando...
Porque... sabes...?

Sabes... meu bom amigo...??
Hoje descobri...
Sou um pássaro...!

Sabes,
Sou um pássaro..!

Vale do nada



Sigo,
Uma rota de labareda
Um colibri de todas as cores
Pousa à minha frente, na janela
Eu olho para ele...
Ele olha para mim...
Tantas coisas dizemos naquele segundo de cumplicidade perfeita..
E reinventamos o amor..
Desenhado de fantasia...
Reinventámos a medida com que se contam os segundos
Recriámos a fórmula etérea da energia
Destituídos e nús... já sem tempo...
Fomos vento e sol...
Naquele momento..

Como pode um segundo ser tão vasto...? Ser tão... intenso...?
Como... pode um verso ser tão.... ser tão distante...?
E a pergunta ser tão.... ser tão pergunta...!?
E.. quando fecho os olhos...
No escuro das pálpebras...
Quebro os cadeados que mantêm... as almas fechadas... e os olhos fechados... e os sonhos encarcerados... na cegueira de não ser-se nada...
Serei o único a pensar sobre a forma de me questionar no mundo...?
Serei tão inútil assim... que pensar... é a última coisa que me resta fazer...?
Mas... encantam-me... os voos explêndidos dos vizinhos pássaros
O brotar colorido... dos botões das flores, das suas pétalas.. iluminando...
Iluminando... o verde clorófilo das ramagens das plantas... e a relva... e as árvores...
E um fundo azul celeste... por detrás...
E em baixo... lá em baixo...
Num vale glaciar...
Corre um rio de águas transparentes..
Lá... não há mentira...
Lá... não há tristeza... nem reflexão profunda... nem pensamentos... nem memórias...
Nem lucidez.... nem loucura...!

Lá... só há essa simplicidade bela...
De não haver nada...
De só haver... nada
E esse nada... desabrocha... e viaja...
Pelo nó inverso e imenso... dos teus dedos
Provando a corrente que passa....

Nesse vale... do nada...

O Poema dos Gestos

Existem gestos que gesticulam
O que não se diz
Gestos para o dia
Gestos para a noite
Gestos para cada momento
Que não se vêem, nem se ouvem...

E o teu gesto
O gesto deles, delas, de toda a gente
São feitos de linhas cruzadas
Como nuvens sobrepostas
Numa tela de muitos ontens

E fechou-se o portão
Que o poema dos gestos entreabria,
Anoitece aqui.. numa noite de todas as noites
E a sorte... de sortes distintas...
Entre os alpes da fantasia dos actos
Que num tornado de eloquência
Se dispersa... por coisas que não vês
E adormece... nos lençóis... que não és...
A pele... e a flor... à flor da pele...
Hesita a demora...
Ordena-se a forma do amor...
E os conceitos que conheces...
Findam... no espelho sem cor
Que a harmonia do calor.. no teu corpo
Abre essas aveludadas asas e sobe no horizonte...
Para a forma inevitável de magia...
No topo.,
Num alcance...
Um poema... dos gestos
Aqui...
Quando os gestos...
Gesticulam...