Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Pensei

Pensei



Pensei que a noite
Seria noutro dia qualquer
Um amanhã que viria ontem
Entre as almofadas do amanhecer

Julguei que a sorte
Determinada e restrita a alguns
Não me tocasse de longe como tocou
E ficassem as minhas mãos vazias...e os meus ouvidos surdos...
De uma alma sem som...

Acreditei que o combate pacífico pela liberdade
Seria sempre encorajado pelos Homens
Mas enganei-me ao considerar real essa verdade
Afinal os Homens são cobardes
E não sabem que amar não tem alinhamento
Não tem manual de instruções...
Nem moratórias de tempo..
Que definam quem somos...

E mesmo que outros pensem em definir...
Nada mais errado poderiam fazer
O amor é como uma cigarra que canta num prado verde
Cada cigarra tem o seu som próprio...
Como cada amor tem a sua música única.... inconfundível..
E não pensem que por tentar calar a cigarra... ela deixará de cantar...!
Sei... que cantará até morrer...
Como esta alma que te ama...
Como esta voz que te chama...
Até ao tudo... do tudo...
Expressará sem temor...
Este sentir, este remoinho, esta revolução...
Este querer-te tanto, este fogo que arde em fulgor e calor...
Este amor...
Amor.. por ti...
Nunca calará...
Só quando findar...
O Eu.. que habita aqui.

Pedro Campos

Navegar


Navegar


Fecho o livro do tempo
E o tempo já passou
Ainda agora tinha desfolhado algumas folhas velhas
Com histórias que o teu olhar presenciou

Talvez... já não haja vento
Talvez... hoje a fragata não saia para alto mar
Talvez... o meu leme esteja danificado
Pois perdi as coordenadas...
Perdi o rasto do teu navegar...

Ontem... para encontrar o destino
Limitava-me a olhar pelo monóculo de vidro baço e riscado
Deixava que a maré... me levasse onde tinha que ir...
E ficava de olho aberto às ameaças dos predadores dos oceanos...
Monstros, Piratas, Homens não Humanos...
Tudo aquilo que existe hoje...
Em terra e mar, em céu e ar...
Em todo o tempo, de fogo tamanho...!

Hoje... preciso de encontrar o destino contigo...
Procuro em cada ruína do passado
A melhor forma de encontrar o templo
Onde possa falar a Deus
Onde possa entendê-lo...
E libertar-me deste "não poder"
E amar-te... dar gesto ao sentir...
Sem que ninguém possa destruir...
Essa coisa bonita... sincera e profunda...
Que é amar-te... assim...

Agora... sei que a madeira do casco... está quase quebrada
E as ondas vão-se tornando cada vez mais fortes
Agora... sei que se aproxima o fulcro da viagem...
Aquele momento basilar
Em que assenta tudo aquilo que virá...
E sem saber nada de futuro... nem conjunturar ou prever o que há-de vir...
Sei... que levarei esta fragata onde tiver de ir
E destruirei amarras de preconceito
Caminharei por entre lâminas de egoísmo e inveja
Delapidarei a pedra fria da ignorância, da cegueira...
E seguirei ao leme... toda a vida... que me resta...
Por ti...
Por nós...
Sem cessar...
Até ao último suspiro... deste respirar...
Eloquente... de existir..
Dedicado... a te amar...


Pedro Campos

Nada

Nada...


Sou nada...
Sou nada de mim...
Um templo deserto
Abandonado ao relento
Na madrugada do tempo
Em que o tempo devorou a força
Que habitava imensa aqui...

Eu sou.. nada...
Sou o nada que fica quando o tornado nos atinge...
O nada que resta quando a solidão nos beija...
O nada que sobra...quando partes...
O nada que grita... quando choras...
O nada que chora... quando não gritando... sofres...
O nada... vazio... vácuo... ausente...
O nada... sou eu...
Nítido nulo permanente...

O nada.. sou eu...
Este espírito velho
Enclausurado num corpo novo
Prisioneiro das condições de outros
Lutando por transformar-nos em sonhadores...
Para que amar... e viver... passem a ser sinónimos...
De coisas dimensionalmente diferentes...

E assim... adormeço...
Num nada...
Que perdura...
Na tua ausência...
Na própria ausência de mim...
Eu sou nada...!

Nada.


Pedro Campos

....

Não encontro palavras certas
Nem métrica adequada
Ao que sinto
Aqui dentro

Desfoca-se a visão
As lágrimas escorregam pela face
E rio... sorrio... de alegria...
Tu estás aqui...
Tu estás aqui...
E eu posso abraçar-te...
Tu estás aqui...!

Estás aqui...
Eu estou em nós
O nós absorve-se em ti
E nas brincadeiras do sonho
Adormecemos abraçados...
E amanhecemos sentidos...
Entre o sol da manhã e a lua da noite
E eu amo-te...
E nada mais posso acrescentar...
Somente... que te amo...
Profundamente...

Amo-te...
Profundamente...


Pedro Campos

O Ângulo Morto do Amor...



O Ângulo Morto do Amor...



Folhas de papel que se dobram
No agitar da esquina
Um mendigo abraça uma árvore
E um veado corre no asfalto
À procura de um relógio suspenso na moldura
Do céu

Um galho de pedra
Com estátuas de pedra
E lágrimas de pedra
Escondem um interior de vida
Um retrato a carvão que nasce na minha mão
E a saudade de quem fui há 1000 anos atrás
Presa na fotografia do que serei
Amanhã...

Às vezes...
Deslumbre em ti...
A orvalhada folha de eternidade...
E o pólen secreto de respirar...
É o momento chave desta vida...

Às vezes...
O amor tem um ângulo morto
Oculto da visão
Como um espelho que esconde
O que está nos dois lados do coração...

E assim...
Por mais que a nota musical vibre
E o tom seja ténue ou forte
O piano deixará sempre entre o sustenido de cada nota
Uma nota inaudível por descobrir

E assim...
Por mais que o verso possa crescer
Será sempre pequeno demais
Para o sentir que nele possa haver

E aí...
Também o vento
Que nos toca
Deixa sempre versos em branco
Por cumprir

Os mesmos que ontem... hoje... ou amanhã...
Farão parte da história
De mais um ângulo morto do amor...
Que acabaste de pressentir...!

E nesse instante...
Também tu...amigo...
Deixarás na fronte do espelho...
O ângulo morto do amor..
Que também existe
Dentro de ti...


Pedro Campos

Carrocel de Incertezas



Carrocel de Incertezas


A cabeça girando em redor da lua
Como um carrocel de incertezas
Que agitadas percorrem todas as dimensões do espaço
Todos os espaços do tempo
Todas as velocidades que um movimento
É passível de conceder...!

E a saudade...
E o gesto...
E o abismo...
E o grito de partida...
Além... tão longe do destino...
E o relâmpago na noite
Entre o fogo alheio do crepúsculo
E a protecção secreta da andorinha
E a madrugada fria
E as paisagens desenhadas com as mãos
Numa tela de verdes pastagens
Com árvores de copas luxuriantes
Entre as nuvens que aos olhos das aves...
São simplesmente uma ilusão...
...
... E... arrepiam-se os pêlos...
Os poros emergem do horizonte dérmico
E o celeste entusiasmo... com que vibra o sangue...
Acelera o metabolismo da alma... ali...
E... os meus dedos desabrocham...
Desabrocham...
Desabrocham...
Na escuridão perpétua
De um velho portão
Escancarado... para o nunca...!

Com uma tristeza quase matemática
Distribuo pelas montanhas do caminho
O Cloreto de Sódio em gotas
Que enchendo o cálice de vinho
Explode estridente...
Ali... despertando todo o vento...
Abraçando todo o sentimento...
Que dizendo se refaz
Do nunca dito em mim
Do que se fez e se quis
No que se deixa e não se diz
Como poema deserto das horas em silêncio
Sucumbindo em ternos e vagos
Instantes
Do indizível que se notou aqui...

E num último relance...
Numa última análise...
Faço versos sem harmonia
Que absorvem harmoniosamente
As nuances incoerentes
De um discurso que junta nas mesmas linhas
Palavras simples e palavras solenes
E... acontece poesia...

.. Acontece poesia...
Acontece alguma coisa... ali...
Alguma coisa... talvez sem nome...
Algo que bate e ritma dentro de uma alma...
E que se agita quando sente no outro olhar que ama...
A reverberância da chama...
Que te chama...
Que me chama...
Quando bebe... da chama...
Do clamor que me agita e entontece e se inflama...
Deste querer, de querer-te mais e mais..
Do que alguma vez o horizonte da lógica possa sequer... entender...
Entre a dor que se sacode como um cão molhado...
À beira do precipício do ontem... junto ao lago...
E os lábios ainda húmidos da mulher do meu sonho... na baía dos desejos...
E soluço...
Soluço...
Sei que há muito mais além da superfície espelhada
Ambígua e embaciada
De tudo
E de nada...

Sei... que há muito mais... além da transcendência molhada
De tudo..
E de nada...
Nessa fragrância delicada.. genuína e emocionada...
Que é este meu amor por ti...
Este meu sentir...
Que rodopia
Do início ao final do dia
Como um carrocel de incertezas
E a cabeça girando em redor da lua
Com a única convicção residente em mim... que é amar-te...
E a única certeza: procurar-te até ao findar do último sopro ardente
Que ainda houver... no derradeiro suspiro...
Dentro de mim...!

Tu... dentro de mim...
És a locomotiva... do meu sonho...!



Pedro Campos - Amo-te...

Assim...

Assim...


Um nó de dedos
Os dedos suspensos
Na margem de um ar
Que sucumbe no despoletar
Do silêncio eterno

Um estalido ao longe
É como uma árvore que cai
No seio de uma floresta perpétua
Entre as noites do tempo
Vociferando a imensidão
E o teu rosto no céu
Procuro por ti em cada instante do meu vento
E adormeço por ti...
Adormeço por ti...
Sonhando-te...
Na demora longa de buscar-te... assim...


Pedro Campos

Sem título




Olhos vagos
Pingados de dor
Explanam no planalto enfermo de infinito
A saudade do teu sorriso

Tenho medo
Medo do mosaico de arte
Que expressa o meu sentido
Na tela rasgada... na minha noite vadio...
Adormeço e acordo...
Com uma estranha necessidade de me isolar... de novo...

Sou negligente do silêncio
Preciso da armadura incerta do tempo
E durmo mais tranquilo com a tua mão no meu olhar... assim...
Mas vou partir...
Irei partir...
Sou perpétuo no vento
Talvez tudo de mim seja nada em ti
Talvez... se dependesse do céu... eu já não teria sonhos para sonhar
E talvez... os meus dedos... não pudessem mais
Tocar-te...


Amo-te...


Pedro Campos

Foi ontem...



Foi ontem



Foi ontem...
Que uma imensidão de asas esvoçantes
Cruzaram um céu azul de verão
Com penas feitas de papel
Entre as nuvens deslumbrantes de algodão...

Nos olhos tinham o brilho inocente
De quem recebe um primeiro beijo sem esperar
E cem mil bússolas rodopiavam ardentes no interior da alma
Que conduziam a vida em chama para longe dali...

E todos os pingos de aguarela...
De um artista sem nome...
Pingavam abandonados, no chão...
E todos os gestos eram harmoniosos
Eram sombras de luz
Que ecoavam na invariância de um espectro de cor sem cor
Imanente à pigmentação
Da fragrância eterna
Das tuas mãos nas minhas mãos
Da tua verdade na minha emoção...

Todos os silvos eram profetas
Eram gritos de renúncia à herança da dor
E o espelho de fantasia
Emergente da atmosfera do teu sorriso
Reflectia de modo enebriante
A latitude da liberdade
Que nunca encontrei
Aqui...


Pedro Campos

O Lago

O Lago


Cai do lago do tempo
O volume denso e provocante
Da loucura sentida
Entre o tecto da alma
E o latejar da vida

Cai... no infinito do vento
As gotas cadentes de perfume de ti
Unguento e sagrado
Como um celeste momento
Em que começa a fantasia
De um gracejar eloquente
De ser-me presente
Fazendo instante
Semi-nú no pátio dos sentires
Com as portas escancaradas
Para o sempre...

Deleito-me... nesse lago
Deslumbrante em ti
Segundo as leis da harmonia do universo
Disparo-me com sentidos
Os trans-sentidos de quem eu sou
E sou eu em ti
E amo-te simbioticamente
Fascinando-me... em nós...

Deleito-me
Quando o gotejar do silêncio dos teus lábios
Cai... nesse lago...
De beleza ínfima...
Onde te desejo...
Profundamente...
A cada instante...

Amo-te...


Pedro Campos