Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Quando me sento...



Quando me sento aqui
Com os olhos abertos ou fechados
Vejo os momentos perfeitos, inteiros, abraçados
Vejo as noites contigo
Os dias unidos
As lágrimas dispersas
As portas abertas
Os teus vestidos....

Quando me sento aqui
Sei que estou sozinho
Ao meu lado já não estás tu chamando por mim
Nem a tua voz...
Nem o teu sorriso...
Nem a onda daquele mar... que nos abraçou assim...
Cintilando em ti...
Navegante em ti...
Amante... em ti...
E tu.... em mim... imensidão...
Totalidade de nós em sublimação

Somos fascinação imensurável na eloquência da vida...
Que nos desperta dedo a dedo, passo a passo...
A dança natural do amor pleno e da emoção sentida...
Em nós...!

Quando me sento aqui...
Faltas-me sempre tu
E aumenta o vazio....
Entre mim e lugar nenhum...
Entre as tuas mãos e o meu peito...
Entre os teus seios e o meu sonho...
Entre a tua seiva e o rio timbrado
A arco-íris da nossa sensibilidade comum...

E existe nestas palavras que aqui faço
A angústia que ficou
E a esperança de quem luta e lutou...
O sonho de quem continua a acreditar...

E quando fecho a porta
Ou quando abro a janela
Fico senhor deserto do meu sonho
E a ausência de ti... sibila em mim
A ânsia do teu regresso...
Ao banco do nosso jardim....
Que ficou perplexo...
Quando partiste para londe daqui....!

E...
Choro...
As lágrimas caiem no chão
E forma-se uma lagoa...
De saudades de ti....

E essa água...
Toda ali contida...
Revolve as profundezas do meu ser...
E do sentido que tenho da vida...

E deixa-me perdido....
Fico absortamente perdido
Nesse sentir pendido entre a penumbra e a cor...
Essa vontade enorme de que estivesses aqui
E a raiva... de não conseguir... que estejas aqui...!

E o cenário não é mais o mesmo...
Nem as escadas...
Nem os cheiros...
Nem as paredes...
Nem as pessoas...
Nem as salas...
Nem os segredos...
E os códigos...
... Os códigos
Essas cifras intemporais dos momentos
Desapareceram do nosso dia-a-dia
De nós os dois...
Não para sempre...
Mas como uma longa ausência distante...
Com a espera de um regresso, um dia...

Quando me sento aqui...
Sobra-me a solidão
E o medo, a dor e a saudade
Queimam-me as unhas do espírito
Os dedos do peito
As mãos do coração...

E os sentidos...
As emoções...
Tudo isso mudou...

E os gestos...
Os momentos da nossa terna cumplicidade...
Tudo isso... mudou...

Tudo isso deixou de ser as horas dos nossos dias
E nós deixámos de ser
Aqueles nós que fomos ontem
Que se acompanhavam plenamente nos corredores de madeira
E se amam ternamente
Na loucura lúcida de viver a sonhar
De rir e brincar...
Com a certeza de que isto que sinto é para a vida inteira...

Inteira...
Em mim
Quando me sento ou não sento
Nesta cadeira perpétua...
À espera de ti...


Pedro Campos

Hoje é tempo...



Hoje é tempo
De abandonar as amarras do medo
E soltar as barcaças de epopeia
Que somos nós...
Amando... assim...
E navegando com a coragem no coração...

Hoje, é instante perto do peito
E vamos nesse instante
Soltar todos os medos e todos os segredos
E vamos unir as mãos sem medo dos olhos dos outros
Sem medo que as montanhas se agitem
Ou que o chão estremeça
Ou que o vulcão expluda
Ou que o vento se esqueça
Porque eu sou lembrança, amo-te... e lutarei para que esse amor vença..

Hoje, quero dizer-te uma vez mais o que sinto
Uma vez mais esse engenho profundo que revolve o meu ser
Essa energia que transforma o querer em viver
E me faz todo em ti...
E me faz uno... completo e feliz... por ti...

Hoje, sinto como ontem e como amanhã
As saudades do teu beijo, da tua boca...
Da textura aveludada da tua saliva...
E do teu sabor... salgado...profundo... doce...

Hoje, sinto como sempre...
As saudades de ti...
As saudades de nós...
As saudades do amor... do instante... do desejo... da amizade...
As saudades de estarmos unidos como um só organismo
Uma só espiritualidade...
Eterna... ali...

Hoje, fecho uma vez mais os olhos
E adormeço... mais uma vez... imaginando-te comigo...
E sentindo... no mais profundo do meu sonho... o teu calor...
Adormeço a desejar... acordar... junto de ti
Apenas e só...junto de ti...
Meu amor...

De ti..
Eterno fulgor...


Pedro Campos

Multidão indefinida


Multidão Indefinida


Desembrulhei as pedras azuis
Essas pedras feitas de sonhos
Frias, gélidas, lisas
Com textura cremosa e tempo indefinido...

Com languidez, desfiz de novo as rotas traçadas no mapa desigual
Com perpetuidade...omiti o medo e ofusquei num relance... a timidez...
Com ternura...decifrei a cor do teu rosto...
E compus com palavras...
A força do meu profundo sentimento por ti...

Às vezes não me conheço...
Às vezes sou mesmo, talvez, quem sabe... uma seara deserta de vida...
Um abismo ancestral... aberto para o obsoleto concentrado do universo...

Às vezes... não sei quem conto em mim...
Um infinitesimal aglomerado de personagens vãs... caladas e sigilosas...
Que o medo e a saudade faz despertar aqui...

Uma multidão indefinida...
Que caminha dentro de mim...


Pedro Campos

Nunca existi...


Eu... Nunca existi...


Abro a tampa da caneta...
Sobre a secretária a vela acesa...dança...
Ao som de uma música que não oiço...
Mas que bate dentro de mim...
Incessantemente... divagante... e luxuriante...

Na velha madeira rabiscada e rasgada pelo tempo...
Jaz um velho caderno de retalhos de poemas...
Que quase se suicida na noite
Quando quase cai no abismo do fim da largura da base de escrita....
Ali... a meio metro do chão arenoso de pensares e sentires...
Situado na planície evidentemente alheia ao existir

Girando em meu redor...
Um ruído de cansaço percorre os becos da casa...
E em todo o lado se ouve o eco da lágrima que cai...
Desprendida do silêncio... no ar...
Gera a angústia absurda...
De acordar sem saber onde se está...
Quem se é...
O que se sente...

E aturdido de mim...
Esboço na plateia ausente...
Mais uma vez a tentativa vã e louca de expressar num verso...
Toda a mistura eloquente de emoções que fermenta aqui

E sem saber-me de mim...
Debruço-me na praia... lembrada no fim...
Daquela tarde junto ao mar...
Em que sentados na areia...
Jantámos a substância poética das nossas almas...
Essa que nos nutriu...
Essa que me fez sonhar...
E acreditar... só...
Acreditando... crendo e desejando...
Que fossemos nós...
Nas diferentes pontes entre o céu e a terra...
Sempre nós...

Que...Entre nós os dois...
Nunca deixássemos de ser nós...
Que entre princípio e continuidade...
Nunca pensássemos num fim...
Que entre pensar, dizer e fazer...
Nada se sucedesse...num diferente rumo...a revelar...
Ou a esconder...

Talvez...
Sentado...aqui nesta cadeira de ontem...
Com o tempo a morder-me as unhas do vento...
O mundo me vá preparando para partir...

Sim...porque os sonhadores também partem...
Algures... em algum momento...
Partirão... partirei...
Para um lugar de ninguém...

Talvez...
Hoje...esteja quedado em mim...
Sem a mesma força de outros tempos...
Sem o mesmo sorriso...
Sem a mesma fé...
E sem o mesmo Ser...
Sem o mesmo Eu... que fui....
Que me fez acontecer...

Talvez...
Nesta secretária de madeira rugosa...
Eu largue no instante quem sou...
E me prepare...
Para largar... quem fui...
Quem serei...
Quem poderia ter sido...
Ali... ao raiar do dia...

Ali... ao raiar do dia...
Só pó brilhando ao sol...
Cortinados ao vento...
Chuva miúda que inunda a serra...
E deriva para o mar...
Tornado...cascata...
De tornados de sentir
E vulcões de carpir...
Gaivotas gracejando...
Silvos de memória...
Do tempo perdido...
O aglutinado instante amordaçado...
Do grito suspenso pelo que se poderia ter vivido...
E não viveu...
Pelo que se poderia ter sido...
E não aconteceu...

E aí...
Quando as gaivotas todas...
Esvoaçarem no voo da despedida...
E as outras aves... silvarem com elegância... na trombeta... da sala marmórea e inquieta...do sublime ascender...
Aí... será o sinal que dirá...
Que como elas...
Também eu voei...
Também eu voei... para longe...
Para muito longe daqui...

E aí...
Quando os meus dedos realçarem a superfície profunda e misteriosa da escrita...
E adormecerem já sem sentir nada...
Mais nada do nada total do sentir...
O quente ou o frio...
O seco ou o húmido...
A dor ou o indolor...
Aí... Adormecerão...
Como eu... Adormeci...

Já sem sentir...
Já sem sentir...
O crepúsculo de ser-me eu...
Para além da aurora de agir
O ser acontecido...
O ter-me acontecido...
Sem fingir...
Como me conheci...

E aí...
Olharei para trás....
E tudo terá sido um sonho...
Que por razão inexplorável... ou alucinação...
Nunca aconteceu...
Aí... A caneta... a vela... o corpo quente...
A chama... a secretária de madeira...
O perfume... a magia... e até o silêncio estridente...
Bem... tudo isso... terá sido breve imaginação...
E eu...
Eu...
Percebo que nunca existi...
Apenas alguém me inventou...
Como eu me imaginei aqui...

Nunca existi...
Fui a prosa elevada de um inventor
Que criou com palavras...
A tarefa impossível de expressar na plenitude... o sentido do amor...

Do amor...
Que esse eu inventado...
Sente e sentirá sempre por ti...

Por ti...



Pedro Campos

Amanheceres...



É cedo
À minha frente vejo um retrato do ontem
O sol reflectindo o seu brilho no Tejo
A estrada inteira à minha frente
Como um desafio a vencer
Todos os dias...
De todas as manhãs...
A todo o instante...

Revejo ali... num relance...
Todos os sítios... espaços e tempos...
Todos os lugares marcados por nós na memória
Todos os instantes... gestos... sussurros...
E emociono-me com a dimensão transcendente...
De tudo...
De tudo... o que fomos... somos...
Queremos ser...

E esses lugares
Essas paisagens do sonho...
Vão passando vertiginosamente face a face...
Ao meu lado...
Por mim...
E no rosto...
No resto que sobra do meu rosto...
Aninham-se as lágrimas saudosistas
De tudo o que passou...
Que a pouco e pouco, paulatinamente...
Encontraram um espaço próprio..
Esculpiram um leito seu...
Só seu...
No rosto do meu rosto....
Ao espelho...

Sei...
Tudo passa... ou quase tudo...
Mas... houvesse liberdade pura..
E hoje seria o ontem que findou
Hoje seria em mim nascida...
A esperança que voou
Seria em mim plena e cristalina...
A lagoa que explodiu
O arco-íris que se derramou
Na toalha húmida e fria
Das nuvens de algodão salgado...
Precipitado de angústia..
Ali...
Nesses amanheceres...
Sem ti...

Tristes...
Sem ti...

Doridos...
Sem ti...

Ali....
Amanheceres...


Pedro Campos

Sigo o meu caminho...



Sigo o meu caminho
Ruas desertas
Mãos despertas
Para o amanhã do mundo

Cada passo que dou
É uma asa que rasga o céu
Num movimento de vazio
Que dá cor ao nevoeiro presente

E sinto...uma imagem visionária do ontem
Cálculo no silêncio as manobras das borboletas
Que percorrem mil flores para habitar uma só

E rio...sob o paradigma da manhã
Sou gesto destituído de força
Mas em mim tenho a força de querer ter gesto no amanhã...
Que somos nós...

Nós...


Pedro Campos

O fim do caminho


O fim do caminho


Sinto-me perto do fim
Sinto-me longe de mim

Sinto o vento feroz seduzir-me a face
A pele arrepia-se até à medula
E o tempo rarefaz a minha dor...

É como se num momento
Deixasse de ser um velho fardo de palha cansado e seco
E passasse a possuir a leveza de não estar mais aqui

É como... se nesse instante
Absorvesse toda a lucidez do universo
E descortinasse que o meu caminho
Está a chegar ao fim...

Sim...
Ali.. está...
O fim do caminho...
Aquele em que me deito e sinto-me sozinho
Aquele em que vejo as mãos enrugarem-se com a humidade extrema das lágrimas que verto.. que verti...
E chego... sempre... por mais voltas que dê...
Ao fim do caminho...

Sei... que não me é permitido modificar o fado
Sei... que não posso utilizar a alquimia para o fazer...
E assim... sem poder alterar a minha rota
Sem ser capaz de modificar o meu destino...
Acabo... ali...
Findo ... ali... a minha história...
Ali...
Junto do fim do caminho...

O fim do caminho...

Pedro Campos

Alucinação


Alucinação...


Percorro a estrada à velocidade da luz
O tempo parece remover-se do silêncio
E o silêncio assemelha-se a uma onda de infinito
Que absorve o impacto do som do vento
Ali... na infinitesimal estruturação sublimada do sentimento
O extase.... de uma alucinação...

As imagens que os meus olhos vêem
Tornam-se turvas... dissipadas... envolventes... distorcidas
O corpo arrepia-se... e um calor fulgorante percorre cada gota do meu sangue fervilhante
Causando... dor... calor... e um frio inesperado... que queimando gelidamente
Me faz suar desesperadamente...
Por todos os poros
Em cascatas de mim

O sangue transparente da minha alma
Que se diluí no fim...
Enfeita de emoção o clímax da ilusão
Que acontece... diluindo na boca o sabor
Que a vida... me provoca num apogeu psicadélico extasiante e efusiante
Ao ritmo do intrépido movimento ocular
Dos sonhos que eloquentes despertam lágrimas no olhar
E mordem...
Os lábios...
Os lábios teus...
Em mim...
Alucinação...
Mais profunda que alguma vez
Me foi possível imaginar...

Alucinação...
Alucinantemente em ti...


Pedro Campos

Despeço-me



Despeço-me


Despeço-me de tudo
Ao vento largo as folhas escritas com poemas
E vejo, o vento levá-las para lugares longínquos
Assisto ali, à viagem de mim... por locais translineados em versos
E frases complexas...
Que sucumbiram à inversão do tempo
Ali... naquele redemoinho de vento
Em que se sustenta o acreditar
Do Poeta que acorda para o seu fim...

Num último gesto
Buscando uma última memória de sonho
Emociono-me com a emoção que as lágrimas geram no seu íntimo energético...
E desperto-me moribundo...
Acordo-me dormindo
No verso de um poema esquisito

Ali...
Nas folhas do Outono que viajam... como eu...
Sem destino...
E cada vez mais...
Sem origem...

Se sou Poeta?
Sou...
Se sou amante?
Sou...
Se morri?
Não...
Ainda estou aqui...


Pedro Campos

Sou teu


Sou teu...

Sou teu
Olhar e poema
A bruma na chama
O vento na sombra

Sou teu
Restéa de fulgor
Na noite de calor
Em que somos unos
No riso
No gesto
Em nós
Em tudo

Sou nosso
Barco navegante
Proa sem remo
Remo sem marinheiro
Sou livre na expressão
E prisioneiro na imensidão

Sou vento
Que te acaricia ternamente o rosto
E que te sente, entusiasmantemente
A ti... amor fascinante...

Sou teu...
Amando-te
Eternamente...


Pedro Campos