Aos meus pais, avós e amigos.
A toda vida...
A toda a natureza..

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Nunca existi...


Eu... Nunca existi...


Abro a tampa da caneta...
Sobre a secretária a vela acesa...dança...
Ao som de uma música que não oiço...
Mas que bate dentro de mim...
Incessantemente... divagante... e luxuriante...

Na velha madeira rabiscada e rasgada pelo tempo...
Jaz um velho caderno de retalhos de poemas...
Que quase se suicida na noite
Quando quase cai no abismo do fim da largura da base de escrita....
Ali... a meio metro do chão arenoso de pensares e sentires...
Situado na planície evidentemente alheia ao existir

Girando em meu redor...
Um ruído de cansaço percorre os becos da casa...
E em todo o lado se ouve o eco da lágrima que cai...
Desprendida do silêncio... no ar...
Gera a angústia absurda...
De acordar sem saber onde se está...
Quem se é...
O que se sente...

E aturdido de mim...
Esboço na plateia ausente...
Mais uma vez a tentativa vã e louca de expressar num verso...
Toda a mistura eloquente de emoções que fermenta aqui

E sem saber-me de mim...
Debruço-me na praia... lembrada no fim...
Daquela tarde junto ao mar...
Em que sentados na areia...
Jantámos a substância poética das nossas almas...
Essa que nos nutriu...
Essa que me fez sonhar...
E acreditar... só...
Acreditando... crendo e desejando...
Que fossemos nós...
Nas diferentes pontes entre o céu e a terra...
Sempre nós...

Que...Entre nós os dois...
Nunca deixássemos de ser nós...
Que entre princípio e continuidade...
Nunca pensássemos num fim...
Que entre pensar, dizer e fazer...
Nada se sucedesse...num diferente rumo...a revelar...
Ou a esconder...

Talvez...
Sentado...aqui nesta cadeira de ontem...
Com o tempo a morder-me as unhas do vento...
O mundo me vá preparando para partir...

Sim...porque os sonhadores também partem...
Algures... em algum momento...
Partirão... partirei...
Para um lugar de ninguém...

Talvez...
Hoje...esteja quedado em mim...
Sem a mesma força de outros tempos...
Sem o mesmo sorriso...
Sem a mesma fé...
E sem o mesmo Ser...
Sem o mesmo Eu... que fui....
Que me fez acontecer...

Talvez...
Nesta secretária de madeira rugosa...
Eu largue no instante quem sou...
E me prepare...
Para largar... quem fui...
Quem serei...
Quem poderia ter sido...
Ali... ao raiar do dia...

Ali... ao raiar do dia...
Só pó brilhando ao sol...
Cortinados ao vento...
Chuva miúda que inunda a serra...
E deriva para o mar...
Tornado...cascata...
De tornados de sentir
E vulcões de carpir...
Gaivotas gracejando...
Silvos de memória...
Do tempo perdido...
O aglutinado instante amordaçado...
Do grito suspenso pelo que se poderia ter vivido...
E não viveu...
Pelo que se poderia ter sido...
E não aconteceu...

E aí...
Quando as gaivotas todas...
Esvoaçarem no voo da despedida...
E as outras aves... silvarem com elegância... na trombeta... da sala marmórea e inquieta...do sublime ascender...
Aí... será o sinal que dirá...
Que como elas...
Também eu voei...
Também eu voei... para longe...
Para muito longe daqui...

E aí...
Quando os meus dedos realçarem a superfície profunda e misteriosa da escrita...
E adormecerem já sem sentir nada...
Mais nada do nada total do sentir...
O quente ou o frio...
O seco ou o húmido...
A dor ou o indolor...
Aí... Adormecerão...
Como eu... Adormeci...

Já sem sentir...
Já sem sentir...
O crepúsculo de ser-me eu...
Para além da aurora de agir
O ser acontecido...
O ter-me acontecido...
Sem fingir...
Como me conheci...

E aí...
Olharei para trás....
E tudo terá sido um sonho...
Que por razão inexplorável... ou alucinação...
Nunca aconteceu...
Aí... A caneta... a vela... o corpo quente...
A chama... a secretária de madeira...
O perfume... a magia... e até o silêncio estridente...
Bem... tudo isso... terá sido breve imaginação...
E eu...
Eu...
Percebo que nunca existi...
Apenas alguém me inventou...
Como eu me imaginei aqui...

Nunca existi...
Fui a prosa elevada de um inventor
Que criou com palavras...
A tarefa impossível de expressar na plenitude... o sentido do amor...

Do amor...
Que esse eu inventado...
Sente e sentirá sempre por ti...

Por ti...



Pedro Campos

Amanheceres...



É cedo
À minha frente vejo um retrato do ontem
O sol reflectindo o seu brilho no Tejo
A estrada inteira à minha frente
Como um desafio a vencer
Todos os dias...
De todas as manhãs...
A todo o instante...

Revejo ali... num relance...
Todos os sítios... espaços e tempos...
Todos os lugares marcados por nós na memória
Todos os instantes... gestos... sussurros...
E emociono-me com a dimensão transcendente...
De tudo...
De tudo... o que fomos... somos...
Queremos ser...

E esses lugares
Essas paisagens do sonho...
Vão passando vertiginosamente face a face...
Ao meu lado...
Por mim...
E no rosto...
No resto que sobra do meu rosto...
Aninham-se as lágrimas saudosistas
De tudo o que passou...
Que a pouco e pouco, paulatinamente...
Encontraram um espaço próprio..
Esculpiram um leito seu...
Só seu...
No rosto do meu rosto....
Ao espelho...

Sei...
Tudo passa... ou quase tudo...
Mas... houvesse liberdade pura..
E hoje seria o ontem que findou
Hoje seria em mim nascida...
A esperança que voou
Seria em mim plena e cristalina...
A lagoa que explodiu
O arco-íris que se derramou
Na toalha húmida e fria
Das nuvens de algodão salgado...
Precipitado de angústia..
Ali...
Nesses amanheceres...
Sem ti...

Tristes...
Sem ti...

Doridos...
Sem ti...

Ali....
Amanheceres...


Pedro Campos

Sigo o meu caminho...



Sigo o meu caminho
Ruas desertas
Mãos despertas
Para o amanhã do mundo

Cada passo que dou
É uma asa que rasga o céu
Num movimento de vazio
Que dá cor ao nevoeiro presente

E sinto...uma imagem visionária do ontem
Cálculo no silêncio as manobras das borboletas
Que percorrem mil flores para habitar uma só

E rio...sob o paradigma da manhã
Sou gesto destituído de força
Mas em mim tenho a força de querer ter gesto no amanhã...
Que somos nós...

Nós...


Pedro Campos

O fim do caminho


O fim do caminho


Sinto-me perto do fim
Sinto-me longe de mim

Sinto o vento feroz seduzir-me a face
A pele arrepia-se até à medula
E o tempo rarefaz a minha dor...

É como se num momento
Deixasse de ser um velho fardo de palha cansado e seco
E passasse a possuir a leveza de não estar mais aqui

É como... se nesse instante
Absorvesse toda a lucidez do universo
E descortinasse que o meu caminho
Está a chegar ao fim...

Sim...
Ali.. está...
O fim do caminho...
Aquele em que me deito e sinto-me sozinho
Aquele em que vejo as mãos enrugarem-se com a humidade extrema das lágrimas que verto.. que verti...
E chego... sempre... por mais voltas que dê...
Ao fim do caminho...

Sei... que não me é permitido modificar o fado
Sei... que não posso utilizar a alquimia para o fazer...
E assim... sem poder alterar a minha rota
Sem ser capaz de modificar o meu destino...
Acabo... ali...
Findo ... ali... a minha história...
Ali...
Junto do fim do caminho...

O fim do caminho...

Pedro Campos

Alucinação


Alucinação...


Percorro a estrada à velocidade da luz
O tempo parece remover-se do silêncio
E o silêncio assemelha-se a uma onda de infinito
Que absorve o impacto do som do vento
Ali... na infinitesimal estruturação sublimada do sentimento
O extase.... de uma alucinação...

As imagens que os meus olhos vêem
Tornam-se turvas... dissipadas... envolventes... distorcidas
O corpo arrepia-se... e um calor fulgorante percorre cada gota do meu sangue fervilhante
Causando... dor... calor... e um frio inesperado... que queimando gelidamente
Me faz suar desesperadamente...
Por todos os poros
Em cascatas de mim

O sangue transparente da minha alma
Que se diluí no fim...
Enfeita de emoção o clímax da ilusão
Que acontece... diluindo na boca o sabor
Que a vida... me provoca num apogeu psicadélico extasiante e efusiante
Ao ritmo do intrépido movimento ocular
Dos sonhos que eloquentes despertam lágrimas no olhar
E mordem...
Os lábios...
Os lábios teus...
Em mim...
Alucinação...
Mais profunda que alguma vez
Me foi possível imaginar...

Alucinação...
Alucinantemente em ti...


Pedro Campos

Despeço-me



Despeço-me


Despeço-me de tudo
Ao vento largo as folhas escritas com poemas
E vejo, o vento levá-las para lugares longínquos
Assisto ali, à viagem de mim... por locais translineados em versos
E frases complexas...
Que sucumbiram à inversão do tempo
Ali... naquele redemoinho de vento
Em que se sustenta o acreditar
Do Poeta que acorda para o seu fim...

Num último gesto
Buscando uma última memória de sonho
Emociono-me com a emoção que as lágrimas geram no seu íntimo energético...
E desperto-me moribundo...
Acordo-me dormindo
No verso de um poema esquisito

Ali...
Nas folhas do Outono que viajam... como eu...
Sem destino...
E cada vez mais...
Sem origem...

Se sou Poeta?
Sou...
Se sou amante?
Sou...
Se morri?
Não...
Ainda estou aqui...


Pedro Campos

Sou teu


Sou teu...

Sou teu
Olhar e poema
A bruma na chama
O vento na sombra

Sou teu
Restéa de fulgor
Na noite de calor
Em que somos unos
No riso
No gesto
Em nós
Em tudo

Sou nosso
Barco navegante
Proa sem remo
Remo sem marinheiro
Sou livre na expressão
E prisioneiro na imensidão

Sou vento
Que te acaricia ternamente o rosto
E que te sente, entusiasmantemente
A ti... amor fascinante...

Sou teu...
Amando-te
Eternamente...


Pedro Campos

Tudo...



Agora, percebi
É tempo de deixar as lágrimas dielétricamente fechadas
Na sala isolada de existir...
Ali, naquele compartimento frio
Com lágrimas que escorrem pelas paredes nuas
Em que jazem quadros vazios de autor esquecido na imemória do mundo...

Agora, entendi...
É tempo de deixar as ondas do mar que nos une e separa
Para trás dos olhos e para trás das mãos e da alma...
É tempo de me abandonar... ali... na rotunda da noite
Olvidado na penumbra
Como um lenço esquecido, caído do bolso roto da solidão...

Agora, descubro...
Fui apenas mais um sonho que tive
Nas febris madrugadas em que ardente de fome
Moribundo de imensidão
Caí na chuva dançante do meu coração
E morri...

Morri...
Num enredo sem plano
Num plano sem medo
Onde o vento se toca com o dedo
E o dedo aponta para o vento...
Que, a pouco e pouco,
Se nos revela,
Como se revela um segredo...

Hoje, compreendo
Que por mais que te ame... e amo... tudo... acredita...
Jamais a sétima noite será diferente
De quase todas as sétimas noites que aconteceram...
Porque nos lugares cimeiros
Nos centros nervosos da decisão
Está sempre o mesmo medo
E em si,
A deliberaçao...

Por mais que considere prosseguir o meu fascínio
Por mais que as ondas desesperem no meu íntimo
Ou que as molduras em madeira apodreçam
Eu não sou já nada quando decidires
Porque entre ser tudo e ser nada...
Há pouco espaço de separação
A linha é ténue
O movimento é rápido
E a respiração...
Hum...! A respiração sucede-se a um ritmo incrível...
Quando nos amamos...
Ali...
Na areia molhada...
Pelo tempo que lhe trespassou os grãos
Em troca de uma mão cheia de silêncio...
Que no fundo...grita por ti no meu coração...

Hoje... vislumbro aquilo que fui
Aquilo que fomos
Aquilo que somos
E aniquilo-me quando oiço palavras negando outras palavras que já ouvi
Aniquilo-me... quando me sinto... perder-me... perder-te...
Ali... naquele labirinto...
Perto do fim...

Ali, naquela sala nula
Onde tudo o que queria era ser perpétuo
Mudo perpétuo
Surdo perpétuo
Ignorante perpétuo...

Queria... ali... não querendo...
Deixar-me de sonhos e de vontades
Abandonar-me à posse da desumanidade
E suicidar-me na dimensão insensível da verdade

Mas... enganar-me-ia somente...
Porque a verdade... diz-me outra coisa...

A verdade diz-me exactamente o contrário
A verdade... conta-me os segredos das almas dos homens
Aquilo de que sentem medo
Aquilo de que morrem..

De que é feita a argila das paredes desse labirinto
Onde as almas se cansam e se sucedem no caminho
Que precede o espaço mais amplo
Do fim, do destino...

Na verdade, o que a verdade me diz...
É que por mais salas trancadas e isoladas que procure, apesar de não procurá-las
Tudo e nada serás sempre tu
Haja tempestade ou sol ardente
És tu a única verdade
Que a minha alma entende..

És a chuva
És o girassol
És todo o pensamento
E todo o olhar

És as pedras que caiem
Da montanha alpina
És a sombra que foge
Como um barco em bolina

És...o grito dado
O silêncio acontecido
És a neblina aclareada
És o choro emudecido

És a maré que me transcende
Na noite dos meus sonhos
És a água que me anula a sede
Quando tudo o que me espera é o deserto medonho

És a águia que agita as asas
Em movimentos de andorinha
És o arco-íris que acontece
Quando a chuva penetra a luz divina

És todos os verões e todos os invernos
As estações do ano
Chegadas sem tormento

És todo o meu sentido
E o sentir que abarca o meu todo
És a mão sumptuosamente febril
Que me acalma em consolo

És a flauta mágica e o piano silvestre
És a ceara florida
E o abismo agreste

És todas as velas
De todos os barcos
Todos os mundos
Em todos os palcos

És a rosa que nasce
No seio dos espinhos
És a esperança que acontece
Quando nasce um menino

És toda a incerteza
Transformada em alegria
És a minha certeza
Transmutada em alquimia

És tudo, absolutamente, numenamente tudo... tudo...
Tudo... em mim...

Deia da beleza
Magnética, deslumbrante
És o momento que alucina
És a singeleza cativante

És o cosmos sintetizado em ti
A natureza pura
És sublimação adidada em mim
Na eternidade da loucura
E cada dia mais perene
Na sumptuosidade lauta
Adormeço no teu corpo
Repouso na tua alma...

És tudo...
Univocidade do sentir... que sinto...
Porque é por ti
Só por ti
Que existo
E que me aconteço
Aqui
Ou em qualquer outro lugar...
É em ti que eu sou Eu
E em ti que renovo o meu acreditar..

Amo-te...
Eternamente...
A ti...
Mulher, menina..
Do nosso mar...!


Pedro Campos
Amo-te

Esvaziei-me


Lancei as cartas do sorriso
Lancei-me a mim na escuridão
E o teu silêncio alcançou-me
Ali...naquela noite cansada, na minha solidão...

Lancei no vento todas as minhas fés
E perdi-me nas portas já fechadas dos teus olhos
Perdi-me sem me saber encontrar
Perdi-me quando começava a voar

Eras o Sol e a Lua e de repente... esvaziei-me
Como a onda que chega e leva a areia que nos destrói o chão por debaixo dos pés
Eras tudo para mim e continuas a ser..
Mas fiquei sem ti...
E acabei por ficar sem mim também..

Esvaziei-me...
De tudo...
E o espaço deixado vago...
Foi ocupado por qualquer outra coisa estranha que desconheço o que é...
Talvez... seja o profundo lamento...
Ou a dor cansada...
Talvez seja a mágoa por todas as conversas não faladas
Talvez...
Seja eu próprio...
Ocupando-me...dolorosamente...
Sem me reconhecer...
Dentro de mim...

Esvaziei-me...
Sem ti...


Pedro Campos

Se eu pudesse


Se eu pudesse...
Dizer-vos tudo o que sinto
Contar-vos tudo o que já vivi
Mostrar-vos todos os lugares onde já estive
Deixar-vos embarcar em todas as minhas vontades
Em todos os meus desejos
Em todos os meus sonhos
Sem receio...
De vos poder ferir...
Se eu pudesse...

Se eu pudesse...
Trazer-vos numa viagem guiada ao meu mundo interior...
Abarcar-vos neste barco de vela
Que navega dentro de mim
E aproximar-vos de quem sou genuinamente sendo...
Sem máscaras...
Sem ocultações...
Sem nada omitir...
O eu... livre de interpretações...
Que ama apaixonadamente e acredita...
Acredita que é isso o fundamental da vida...
Simplesmente amar...

Se eu pudesse...
Fazer-vos testemunhas de mim em mim
Testemunhas dos meus medos, das minhas dores, dos meus desejos, sonhos, vontades....
Testemunhas da minha verdade...
Testemunhas de tudo o que já testemunhei...
Testemunhas até da fuga da minha liberdade...

Se pudesse tudo isso...
Exibir-vos-ia toda a complexidade permanentemente simples com que vivo
Toda a força celeste com que respiro
E me aconteço...
Aqui... e em qualquer lugar...
Em qualquer lugar onde exista um som ou um silêncio para ouvir...
Ou um céu ou uma Lua para olhar...
Em qualquer lugar onde haja magia e a poesia aconteça na sua forma mais bonita...
A própria vida...

Se eu pudesse...
Abrir-vos-ia definitivamente a porta de mim
Deixaria o esboço do sonho conduzir-vos nesse labirintico pensar
Que desabroça no meu ser e se fecha nas ondas do mar
Tantas vezes como pensamentos falhados
E dilemas interiores... que nunca foram mais do que... somente... falta de coragem para optar...
Pelo caminho mais difícil
O do sonho, do que se sente... do que se ama...
O verdadeiro caminho da eternidade...

Talvez...
Se todos vós entendessem aquilo que sinto
Aquilo por que vivo
O que me faz suspirar
E aquilo que me faz sentir bem
Todos os instantes, mesmo os mais ténues e incertos...
Passariam a ser também vossos
Passariam a ser vividos por vós
E eu...
Eu... deixaria de ser mais um incompreendido...
Nas fileiras do esquecimento...
Em que se encontram deitados e escondidos...
Todos aqueles que sempre acreditaram que existia algo mais...
Algo mais... para além da película visível do caos do mundo...

Se em cada dia que transita...
Nesta estrada do universo de um poeta...
Eu pudesse deixar-vos a porta do meu espírito totalmente aberta
Para que entrassem... e vissem....
Tocassem...e sentissem... os meus fascínios...
E esta dor aguda que me arde no peito...
Que persiste em desespero...
Como uma fogueira em chamas que queima a pele do silêncio...
Enquanto me quedo em mim, com medo...

Talvez...
Se me conseguissem olhar... verdadeiramente... assim...
Com os olhos límpidos da alma...
E a sensibilidade suave e subtil...
Talvez aí... deixasse de ser considerado um filho da utopia...
E talvez...
Talvez... deixasse de ser encarado como um estranho nesta cidade...
E pudesse ser apenas visto... como um lutador... um sonhador...
Em busca da felicidade...
Essa ambrósia divina...
Verdadeiro produto alquímico...
Genuína pedra filosofal..
A felicidade... e a textura do seu sabor...

Se eu pudesse...
Acreditem...
Que se eu pudesse trocar a maior parte das coisas de que não preciso
Por aquilo que mais me faz falta... ela... Ahimsa...
Acreditem...
Trocá-las-ia... sem receio do depois...
Trocá-las-ia... em nome da felicidade...
Arriscando o salto... no abismo fundo...
Mesmo sabendo... poder naufragar...
Se as penas das asas...
Não me conseguissem fazer voar...!

Tudo...
Se eu pudesse...
Se eu pudesse...
Apenas... ser dono de mim mesmo...
E fosse capaz de lutar...

E talvez...
Talvez seja capaz...
Talvez este poema sem qualquer estrutura poética
Seja já um pouco da luta que estou a travar...
Comigo e com o mundo...
Pelo direito próprio que cada um tem...
De lutar pela felicidade...
Porque...
No fundo...
É esse o sentido mais profundo da vida...
E o rumo que quero seguir...
O rumo de quem acredita...


Pedro Campos

Poema sem estrutura lógica, quase prosa poética... do qual sobressai uma ideia fundamental... a importância de lutarmos pela nossa felicidade... e por aquilo que sentimos... sonhamos e acreditamos! Na verdade, se observarmos bem o mundo, a natureza, as pessoas, os animais e as plantas, apesar de não parecer, devido ao caos que acontece no mundo, na verdade o que todos procuram é a felicidade ou formas de felicidade. Esse é o objectivo natural de qualquer ser que esteja vivo... mas por razões incompreensíveis... essa verdade continua a ser omitida, escondida e quase recusada por nós.

Se não mudarmos rapidamente a eleição das nossas prioridades na vida, arriscamo-nos a perder o essencial que poderíamos viver, sentir e testemunhar: a beleza da felicidade...

Pensem nisso...